Em comemoração aos 5 anos de ‘I Like It When You Sleep, for You Are So Beautiful yet So Unaware of It’, a revista The Forty-Five publicou uma carta de amor para o segundo álbum da The 1975. A jornalista musical Sophie Williams relembra sua adolescência e os momentos em que a música a fez se sentir acolhida e compreendida. Confira a tradução na íntegra.

 

Cinco anos atrás, em 26 de fevereiro de 2016, o segundo álbum da The 1975 chegou como uma explosão impressionante de neon rosa.

‘I Like It When You Sleep, For You Are So Beautiful, Yet So Unaware Of It’ foi uma reinvenção teatral e épica para uma banda que antes se envolvia em uma estética grunge sombria, e houve grande fanfarra em torno do álbum desde o início: “O mundo precisa desse álbum”, disse o vocalista Matty Healy à NME algumas semanas antes da data de lançamento.

Além de toda a hipérbole e postura para mídia, entretanto, havia alguma verdade na declaração de Healy; esse opus de 17 faixas e 75 minutos imediatamente deu a uma geração de jovens fãs do pop a sensação de que este álbum pode ter sido escrito para eles.

Eu tinha 15 anos quando ‘I Like It When You Sleep…’ apareceu. Como uma aluna do primeiro ano do Ensino Médio, crivada com um diagnóstico grave de Transtorno de Ansiedade Generalizada – uma condição vitalícia que afeta até 5% da população do Reino Unido – eu estava cumprindo meu ensino médio com um horário reduzido, apoio pastoral diário e grandes sessões de aconselhamento. Lidei semanalmente com ataques de pânico debilitantes. Fiz cada um dos meus exames sozinha em salas de aula do lado oposto da escola, longe de meus colegas, com apenas um vigilante excessivamente simpático para me fazer companhia.

Mas viver com o TAG durante minha adolescência significava que eu era hiperobservadora e constantemente ligada ao que estava acontecendo ao meu redor, tanto em um nível micro quanto macro. Meus períodos livres, que eram ostensivamente reservados para a prática de meditação e técnicas de respiração, se tornaram a hora de mergulhar em minha coleção cada vez maior de revistas de música, com um marcador na mão, ouvindo a maior quantidade de álbuns recomendados quanto minha assinatura gratuita do Spotify permitisse. E correndo o risco de soar arrogante, sempre me senti anos-luz à frente de meus colegas em meu gosto e conhecimento musical. Eu tinha encontrado o mecanismo de enfrentamento perfeito.

Foi com ‘I Like It When You Sleep…’, onde senti que, pela primeira vez na minha vida, minha atitude estudiosa de acompanhar o ciclo implacável da cultura pop havia se tornado realidade. Um enorme monstro de imensos hits de synthpop e floreios ambientais (com uma boa dose de pompa), o álbum fez todo o sentido para a jovem nerd de música que eu era na época. Ele vasculhou os arquivos pop dos anos 80 em busca de inspiração: o provocativo single ‘Love Me’ homenageia (talvez de forma muito gritante) os riffs funk e hipnóticos de David Bowie da era ‘Fame’; os guinchos nervosos de Talking Heads podem ser ouvidos no chiclete ‘UGH!’ Mesmo a comovente ‘Somebody Else’ poderia passar por uma balada perdida de Janet Jackson.

Aqui estava um álbum tão confuso, poderoso e complexo, que encontrou sua genialidade em elementos roubados das influências centrais óbvias da The 1975 e as transformou em uma coleção de canções quase perfeitas para uma nova geração de obsessivos com o pop, eu inclusa. ‘I Like It When You Sleep…’ tinha hinos arrebatadores sobre juventude, sexualidade, confusão, identidade, luxúria e tristeza que eram universais o suficiente para despertar o interesse do mainstream (‘The Sound’ atingiu a 15ª posição no Official Singles Charts do Reino Unido , a posição mais alta da banda até aquele momento), mas para os ouvintes mais jovens, também forneceu uma porta de entrada para os artistas dos quais pegou emprestado.

Eu estava encantada. Como muitos adolescentes focados na internet em meados da década de 2010, cresci no meio de plataformas como Tumblr, Twitter e YouTube; comunidades online fora da escola onde eu poderia me apaixonar por uma banda e ter uma grade na qual aprendi sobre fandoms de música, redes sociais e os caminhos de uma subcultura. The 1975 ganhou popularidade como os líderes da revolução do Tumblr com estética a preto e branco do final de 2013 e início de 2014 (com a qual eu estava embaraçosamente comprometida), mas foi ao ouvir ‘I Like It When You Sleep…’ que comecei a criar epifanias com sua música.

Para uma adolescente que só conheceu os últimos anos de sua vida como definidos por desequilíbrio químico, a emocionante faixa do álbum ‘The Ballad Of Me And My Brain’ foi profundamente comovente: “Onde eu estaria se fosse meu cérebro?”, lamentou Healy sobre os instrumentais brilhantes. O modelo da canção que usa sagacidade e drama em igual medida para ilustrar questões de saúde mental era acessível – e eu encontrei vislumbres de conforto em suas melodias, enquanto meu próprio distúrbio continuava a impedir minha educação secundária. Inferno, até mesmo as melodias otimistas e a ambição de boyband de ‘She’s American’ e os agudos ofegantes e crescentes de ‘Loving Someone’ muitas vezes forneciam uma dose muito necessária de positividade.

E parece que eu não estava sozinha em minha devoção a ‘I Like It When You Sleep…’. O álbum estreou em #1 em ambos os lados do Atlântico em sua primeira semana, e foi nomeado para Melhor Álbum Britânico no BRIT Awards 2017, onde a banda ganhou o de Melhor Grupo Britânico. Evocou respostas viscerais dos ouvintes além do gênero indie de uma forma que o LP de estreia autointitulado do The 1975 falhou, e isso se traduziu em um sucesso comercial substancial.

No entanto, ‘I Like It When You Sleep…’ não é um álbum perfeito (os instrumentais dolorosamente lentos ainda são frustrantes) e, com o passar dos anos, ele se afastou cada vez mais de ser meu favorito. Mas por ser um álbum que definiu meus anos de formação desafiadores, ele permanece incomparável como um álbum pelo qual sempre serei grata.