O novo e épico álbum de 22 faixas parece uma trilha sonora para uma vida isolada. Falando de seu confinamento em um refúgio no interior inglês, Matty Healy explica como Greta Thunberg, FKA Twigs e Phoebe Bridgers o ajudaram a mapear Notes On a Conditional Form.

Matty Healy sabe que ele fez algumas afirmações ousadas. Talvez até afirmações estúpidas, dependendo da sua perspectiva. Às vezes eu gostaria de me controlar um pouco”, ele admite. “Faço entrevistas, e é apenas uma conversa, e depois mais tarde torna-se outra coisa. Infelizmente, ainda não aprendi minha lição.”

Healy está um pouco tímido, porque acabei de parafrasear algo que ele disse sobre What Should I Say, uma faixa do quarto álbum da The 1975Notes on a Conditional Form – uma música que ele disse anteriormente que poderia ser a maior da banda até agora. Construída em torno de uma melodia elíptica e vibrante, e acentuada por um vocal fantasmagórico de FKA Twigs, soa como uma versão derretida de What Do You Mean? de Justin Bieber: puro dance-pop que encantará multidões de festivais em todo o mundo, uma vez que esse tipo de coisa for permitido novamente.

Mas, independentemente de onde What Should I Say apareça nas paradas, toda vez que Healy fala sobre sua própria música, ele se parece mais com um fã de sua banda favorita, e não como o próprio vocalista da banda. Em um ponto de nossa conversa, ele se refere a si mesmo como um “rock… star”, e a pausa galáctica entre as duas palavras mostra o quão estranho ele se sente ao reconhecer isso. (Isso apesar do fato de o cabelo dele estar cortado, hoje, em um estilo muito rock star, no estilo mullet-falcão.)

Eu sou apenas um verdadeiro fanboy”, ele insiste. Eu sempre tive um bom relacionamento com meus fãs, porque eu sou tipo: Mano, eu entendo vocês. Eu ainda sou assim com as minhas bandas favoritas.”

Além disso, o jovem de 31 anos aprendeu algumas lições desde o lançamento de do seu álbum de estréia auto-intitulado de 2013. Até mesmo ele não seria tão corajoso a ponto de chamar o NOACF de à frente do seu tempo. Em parte porque ele sabe que o estado caótico dos assuntos modernos não poderiam ter sido previstos por ninguém.

Certamente não havia como prever em outubro de 2019, quando a banda lançou Frail State of Mind, o segundo single do Notes, que sua letra (Ir lá fora? Parece improvável”) logo assumiria um significado muito diferente da ansiedade social que ela inicialmente descreveu. A letra de People, de agosto passado (Eu não gosto de ir lá fora, então me traga tudo aqui”) e até a do insuflável novo single If You’re Too Shy (Let Me Know). Ele narra um encontro erótico que ocorre no FaceTime – a única liberação sexual que, atualmente, os solteiros podem encontrar.

Esses são apenas as “pequenas felizes coincidências” que surgem quando você está tentando fazer um disco que ressoa com o momento em que se vive. The 1975 têm feito isso por quase uma década.

Os quatro membros – Healy, baterista e produtor George Daniel, guitarrista Adam Hann e baixista Ross MacDonald – se conheceram em Wilmslow High School, na pequena cidade de Cheshire, 18 quilômetros ao sul de Manchester, e começaram suas carreiras como parte do que Healy chama de cena emo tardia”. Inicialmente se apresentando sob nomes como Me and You Versus Them, Forever Drawing Six e Drive Like I Do (um projeto que Healy vem perpetuamente tentado a reprimir de alguma forma), eles se estabeleceram como The 1975 depois que Healy leu “June 1st, The 1975” escrito em uma cópia de On the Road, de Jack Kerouac, que lhe foi dada por um artista. Depois de despertar um burburinho, mas sem encontrar uma gravadora estabelecida disposta a arriscar, eles assinaram contrato com a gravadora independente seu gerente Jamie Oborne, a Dirty Hit.

Eles rapidamente transcenderam da cena emo tardia, casando suas emoções widescreen com o pop caleidoscópico em seu segundo álbum, I like it when you sleep for you are so beautiful yet so unaware of it. O lançamento cuidadosamente intitulado de 2016 os transformou em estrelas internacionais. Mas ao invés de prendê-los, o sucesso libertou a The 1975, com o quarteto expandindo sua gama sonora ainda mais em 2018 com A Brief Inquiry Into Online Relationships, um ambicioso, colorido e polêmico mix de angústia acústica, alma oitentista, R&B, jazz-rock e agit-pop. Nesse ponto, eles também se tornaram queridos dos críticos.

Classificando o single Love It If We Made It como a melhor música de 2018, a Pitchfork escreveu: Poucas bandas poderiam ter tentado algo tão audacioso e fazer soar tão comovente – um momento prolongado de contato visual desesperado, moldado como um hino geracional”.

Todos os álbuns da The 1975 chegaram ao número um no Reino Unido, a banda tocou em shows de arena e foram headliners de festivais em todo o mundo, seus fãs ficam obcecados em um grau de hiperventilação com todos os movimentos nas mídias sociais da banda.

Talvez sem surpresa, em algum ponto do caminho, Healy começou a fazer alegações arrogantes, como esta para a Billboard em 2018: “Não há grandes bandas que estão fazendo algo tão interessante como nós agora. “É um sentimento que ele repetiu com mais naturalidade durante a nossa entrevista, porque, para ser justo, agora, poucos poderiam discordar. E essa ousada autoconfiança tem sido acompanhada por granadas jogadas por Healy, brigando com a excessivamente inofensiva Imagine Dragons, e alegando que as estrelas pop não representam nada, com a mesma indiferença que descreve a cor do céu.

Notes foi originalmente anunciado para 1º de Maio de 2019, seguindo o A Brief. Foi então anunciado para fevereiro e depois março deste ano, antes de finalmente se estabelecer em sua atual data de lançamento, 22 de Maio. Você também pode atribuir os atrasos à língua solta de Healy: “Eu fiz três ou quatro entrevistas onde eu disse que eu ia fazer um álbum e pela terceira entrevista, eles perguntaram: Bem, vai sair em seis meses ou um ano?’ e eu respondia com uma data próxima.”

O estado do mundo no momento é a razão óbvia pela qual The 1975 não está em turnê para promover o Notes como deveriam, e também o motivo de Healy está me ligando por FaceTime do banco do motorista de seu carro, em vez de pessoalmente. O carro é um dos poucos lugares onde ele pode conseguir um sinal decente. Parece ensolarado onde ele está, mas essa pode ser apenas a conexão duvidosa, que intermitentemente transforma seu rosto em uma mancha branca e brilhante.

Antes do isolamento formal do Reino Unido ter começado no final de março, ele e George Daniel fizeram uma “viagem ao campo” em Northamptonshire, onde a banda gravou grande parte do Notes e de A Brief Inquiry. O casal está lá desde então, morando no Angelic Residential Recording Studio, que, como o nome sugere, é criado para hóspedes de longo prazo.

Existem novidades: eles estão criando muitas músicas novas e agora são os pais orgulhosos de um filhote chamado Mayhem.

O estúdio é também onde Healy passou a 31º aniversário. Cortesia do isolamento social, e foi exatamente tão animado quanto qualquer aniversário que acontece em quarentena. “Nós só cozinhamos e comemos”, diz ele quando perguntei como comemorou. “Quando fizemos o álbum, fazíamos piadas sobre como nós não saíamos porque estávamos em um grande espaço que dava para criar no estúdio, e já também era nossa casa. Então, quando estamos aqui, é como se estivéssemos vivendo em nosso próprio mundinho.”

Ele compara o ambiente ao thriller pós-apocalíptico de Alfonso Cuarón, Children of Men, de 2016, onde Michael Caine escapa do inferno distópico da cidade se escondendo no que parece ser uma propriedade rural idílica. (Algo que nenhum de nós precisa mencionar: ele acaba morto.)

Enquanto The 1975 não finge profecias, eles fazem outras coisas que só eles fazem. Notes chega com 22 pesadas faixas e começa com uma nova versão de The 1975, a faixa auto-intitulada que abre todos os seus álbuns. Desta vez, assume a forma de uma missiva de palavras faladas sobre nosso planeta em chamas por Greta Thunberg. É o tipo de gesto audacioso que a maioria dos artistas tentaria evitar por completo. De fato, segundo Healy, Thunberg havia abordado artistas maiores “Pessoas que poderiam dar um empurrão comercial apoiando a ideia dela, mas eles não estavam realmente interessados.”

Para The 1975, no entanto, a contribuição de Thunberg serviu como o primeiro lançamento em julho, acompanhado no mês seguinte pela delirantemente anárquica People. Em atenção típica aos detalhes, ele fez isso nas faixas um e dois de todos os seus álbuns, The City, Love Me e Give Yourself a Try – que ele descreve como “declarações preliminares”.

Dado o ruído punk escandaloso de People – cujo vídeo mostra um Healy pavorosamente pálido saltando das paredes de uma instalação de arte do inferno – pode surpreender os ouvintes ao saberem que esse levantador de cortinas é única: não há outra música no álbum que pareça com essa. De fato, quase não existem músicas que se pareçam.

Da melhor maneira, o amplo Notes é sequenciado como uma playlist sem gênero, indo do techno emotivo para um pop indie pop, até um folk e além. Isso reflete o que Healy chama secamente de “tendência a fazer álbuns bagunçados e longos”. Faixa ambiente meditativas dão lugar a hinos pop com brilho neon como If You’re Too Shy (Let Me Know).

A falta de um som unificado exemplifica sua curiosidade criativa, mas também reflete nosso estado contemporâneo fraturado.

Eu acho que a pergunta neste álbum é: o centrismo pode aguentar toda essa merda? Politicamente, economicamente, em termos climáticos – parece que estamos sofrendo muita pressão”, afirma Healy. “Portanto, há isso no disco. Mas também há muitas coisas pessoais.”

Apesar de ser um “rock… star”, as preocupações pessoais de Healy ainda são pés no chão. Ele se vê preso em conversas embaraçosas em festas sombrias. Ele acaba indo embora dessas festas e depois percebe que prefere ter ficado. Ele se apaixona e se pergunta se sua vida seguirá o mesmo caminho para sempre.

Às vezes penso: me emocionei o suficiente para escrever?” Ele reflete. Enquanto os tabloides observaram seu relacionamento de alto nível com a modelo Gabriella Brooks terminar no ano passado, músicas com títulos como Tonight (I Wish I Was Your Boy) e Then Because She Goes (letra da música: “Quando você me deixa, eu choro por dentro”) podem confundir a arte com a vida, os detalhes de sua vida romântica é o único assunto que ele diplomaticamente evita discutir.

Eu costumo não falar sobre isso, não que eu queira ser clandestino, mas porque falo tanto em entrevistas que pode me causar problemas. Isso é tranquilo no Twitter e coisas assim. Mas você não quer que essa merda seja sobre sua vida pessoal” – ele se interrompe com uma risada sábia – “Porque isso é um pesadelo.”

Também há, pela primeira vez na história da The 1975 , participações especiais. Além de Thunberg, há FKA Twigs, que Healy chama de A melhor voz operática na música pop” (e que há rumores de um relacionamento, embora seu rosto não mude de expressão quando a cito). Ela aparece em duas músicas. Seu pai, o ator Timothy Healy, canta a esperançosa Don’t Worry, uma composição de décadas que Matty chama de “A primeira música que eu conheci”.

Mas as contribuições mais proeminentes fora da banda vêm da cantora e compositora Phoebe Bridgers. Ela canta em quatro músicas, principalmente Jesus Christ 2005 God Bless America. Uma balada estranhamente delicada com trechos como Eu estou apaixonado, mas estou me sentindo para baixo / Porque eu sou apenas uma pegada na neve”, pode ser a faixa mais tenra da banda até hoje. Healy, que conheceu Bridgers depois de trocarem DMs do Instagram, diz que emprestou um “country-emo” para o disco, preenchendo cada vez que havia “Um vocal ou uma harmonia que eu não queria fazer”.

Bridgers começou a ouvir a música da The 1975 quando ela ainda estava no ensino médio. Ela me diz que a transição de fã para colaboradora foi surpreendentemente perfeita.

“A cultura me levou a acreditar, com razão, que as belas estrelas do rock são idiotas. Não que eu pensasse que eles seriam idiotas, mas fiquei tão agradavelmente surpreendida com o grau de serem apenas seres humanos”, diz a cantora e compositora de Los Angeles. “Eles são as pessoas menos chatas, e mais famosas que conheço, de longe.” Ela também destaca o quão orgânica é a existência da banda, em contraste com sua celebridade de alto nível. “Não há nenhum mecanismo por trás deles. Eles assinaram consigo mesmos. Eles têm a sua própria gravadora. Não há um gênio do mal se escondendo atrás de uma cortina criando a música deles.”

Essa liberdade explica por que Healy voltou atrás com outra coisa que ele disse em entrevistas e que acabou se transformando em algo importante: que a banda pode estar chegando ao fim. Como o vocalista coloca, o Notes nem existia, até que de repente se tornou necessário.

No final de nossa conversa, começo a perguntar o que o futuro reserva para a banda, mas nossa conexão começa a falhar. Essa seria uma conclusão apropriada – um desvanecimento no éter digital, assim como muitas de suas músicas terminam – mas conseguimos recuperar na terceira tentativa.

Sempre há vários projetos criativos que queremos fazer”, diz ele. Nós meio que pensamos: ‘vamos fazer outro álbum depois disso, ou vai ser algo um pouco diferente?’.”

Acho que o que realmente foi uma sorte para mim é a The 1975 se tornar uma ideia bastante ampla e criativa. Não seria uma surpresa eu e George fazermos outros tipos de mídia e ainda continuarmos sendo The 1975. Não sei se será um disco de 10 faixas, ou um filme, ou um… jogo de realidade virtual.”

Há muitas coisas que eu quero fazer”, continua ele, antes que eu possa perguntar como seria o jogo de realidade virtual da The 1975. “Mas eu acho que, para ser honesto com você, a maneira que eu me sinto melhor sobre as coisas é fazendo música. Sempre se acumula, você entende o que eu quero dizer? Eu sei que sempre sentirei a necessidade de seguir em frente, o que normalmente significa escrever e lançar.”

Ele faz uma pausa, enquanto eu imagino as manchetes que seguirão o que ele está prestes a dizer.

Você sabe, não dá pra ficar no mesmo barco para sempre.”

Não é uma afirmação viral, mas terá que ser suficiente para os fãs de The 1975 até descobrirmos o que vai acontecer depois. Então, com o rosto totalmente descorado pelo brilho do sol, e o sinal falhando mais uma vez, Matty Healy desliga.