O que torna algo um clássico? Sua importância, sua inventividade ou popularidade? Qual característica é aquela específica que alguém em algum lugar com algum poder de escolha define como clássico? Pode-se nascer clássico, ou sua atemporalidade o define? São muitas perguntas e incertezas.

É certo que algumas podem ser respondidas pelo embasamento acadêmico. A crítica, mais precisamente musical, é tão ampla quanto qualquer escolha artística que vá ser julgada, é um trabalho minucioso, requer estudo, tato, dom. Colocar opiniões públicas – quase sempre em massa, diga-se de passagem – não é fácil. De qualquer modo, é sempre pessoal, e muitas vezes vem mais em forma de “eu penso que” do que como uma brecha para o que não foi absorvido. O superficial dita a crítica? Bom, esta é outra discussão. A questão é que opiniões musicais, apesar de amplas, são conduzidas por um caminho onde a crítica especializada define o rumo da discussão. A gangorra sempre tomba para o bom, ou para o ruim, ou então se equilibra no mediano. Mas em casos raros, os dois pesos tentam se fincar na areia, disputando força e quantidade, e resultando em um grande e inquieta “opinião” daqueles que se guiam por resultados prontos.

Nestas excepcionalidades, portanto, o 8 ou 80 não dizem nada numericamente. O que era parâmetro, se torna estatística, e a discussão se amplia cada vez mais, até esfriar sem um resultado padrão. Porém, é fascinante tudo aquilo que polariza o que uma vez concordava em – quase – tudo. Com certeza é inquietante ler “obra prima” seguido por “bagunça sem precedentes”, ou ver uma nota máxima sendo atribuída ao mesmo tópico que recebeu uma mínima, não é corriqueiro, e há algo mágico e único sobre as obras que provocam este fenômeno.

Muito mudou desde Junho de 2018. “Music For Cars será uma era em que lançaremos uma coleção de coisas, e ela começa com dois álbuns”, disse Matty Healy em uma rádio naquela época. Nascia ali o Notes On a Conditional Form, mesmo que apenas em ideia. E desde então ele foi levado pela banda como uma garantia de que “há algo guardado aqui para depois”, enquanto eles viajavam o mundo, se apresentando em arenas, se envolvendo em polêmicas, levantando bandeiras e aproveitando todo o respeito que se colhe após um álbum universalmente aclamado – e previamente concebido. Porém, após todo trabalho bem recebido, há a ânsia pelo próximo, e o fantasma do Notes começava a assombrar. Com a ajuda de um ônibus-estúdio e outras regalias para balancear gravação e turnê, The 1975 não poupou esforços para finalizar um disco que, desde pensado pela primeira vez, foi envolto por altas expectativas.

Até a data de seu lançamento, o álbum era um grande ponto de interrogação. Desde ‘The 1975’, a intro repaginada lançada em em Julho do ano passado, sentia-se novos ares e uma incial ideia de mudança radical, em forma e conteúdo. Não é comum a nenhum músico atual escolher um spoken-word ambientalista como lead single, e muito menos o acompanhar de um anarco-punk furioso. A direção da banda, naquele momento, foi totalmente alterada. “Não há mais dúvidas em 2019 de que a The 1975 é uma banda de rock”, escreveu um crítico, será? E então veio ‘Frail State Of Mind’, o suave pop eletrônico sobre ansiedade social, e ali já era certo que Notes On a Conditional Form não poderia ser definido nem se quisesse.

O ponto mais interessante sobre o álbum, no entanto, foi que mesmo sendo prometido como único, ainda conseguiu chocar. Na verdade, todas as grandes bandas tem esse momento. Aquela obra completamente única, que divide opiniões, provoca debates, decepciona os fãs mais fechados e ao mesmo tempo atrai outros públicos. Matty Healy diz que ser subversivo, atualmente, é não entregar o esperado. Se esse era o seu plano, funcionou perfeitamente. Em longos 80 minutos, é muito fácil soar repetitivo, é uma linha tênue que faz o ouvinte mudar de música ou repetí-la. Mas tudo aqui – por mais desconexo que pareça – se completa, e há propósito perceptível em cada uma das 22 faixas.

Passando por pitadas country, shoegaze, lo-fi, acústica e construído com base orquestral e fortíssima carga do EDM, NOACF não é fácil de se digerir de primeira. Porém inegavelmente, traz The 1975 em seu estado mais criativo, é o ápice experimental da banda, um trabalho minucioso em detalhes e largado em coesão, e isso acaba funcionando como mágica. É possível observar conexões com músicas antigas, detalhes bem posicionados, transições e outros grãos de areia que vão formando uma paisagem enorme, onde cada vista tem sua própria importância e beleza, sendo necessárias análises particulares.

Finalmente, Notes On a Conditional Form não falha em tentar demais atingir o que prometeu, até porque o disco não prometeu ser nada além de o encerramento de uma era. E isso ele faz muito bem, em toda a sua majestade, com suas surpresas, emoções e principalmente: a declaração definitiva de que a The 1975 continua não tendo – e não terá por bastante tempo – nenhum tipo de limite criativo. E isso sem dúvidas caracteriza os clássicos.

‘Notes On a Conditional Form’, quarto álbum de estúdio do The 1975, já disponível em todas plataformas digitais! hyperurl.co/NOACF

 

Matty Healy, vocalista do The 1975, está experimentando uma atividade um tanto irregular. O músico, de 31 anos, está em quarentena com seu companheiro de banda George Daniel desde março, mas quando Healy e eu falamos, ele está dirigindo pelo interior da Inglaterra. Em 22 de maio, a banda lançará seu quarto álbum, Notes On A Conditional Form, originalmente agendado para 21 de fevereiro e 24 de abril. O lançamento de 22 faixas foi gravado um ano atrás, enquanto a banda estava em turnê e até agora, promover um álbum em casa não foi fácil.

Fundada há dezessete anos em Manchester, Inglaterra, The 1975 atingiu a maioridade durante a Era da Internet, com muitas dores de crescimento ao longo do caminho. Seu álbum de estreia homônimo, lançado em 2013, chamou a atenção por sua angústia relacionada com as melodias synth-pop dos anos 80, enquanto em seu último A Brief Inquiry Into Online Relationships de 2018, a banda meditou sobre o agora. Veja Love It If We Make It, uma música que Pitchfork chamou de um hino geracional por sua autenticidade; Healy tirou manchetes diretamente do jornal e as transformou em lembranças líricas.

É difícil condensar o som atual em um único gênero, especialmente com a mistura de ruído ambiente, cordas orquestradas, vocais screamo e coro de gospel que aparecem no Notes. Mas é a sua idiossincrasia muito musical que faz The 1975 ressoar. “É como um espelho – é tudo o que quero que meus discos sejam, um espelho para mim”, diz Healy. “Eu realmente não acho que sou especial. Eu acho que se eu segurar um espelho, tenho que segurar um espelho para muitas outras pessoas.”

Antes do lançamento do Notes, Healy falou com a Vogue sobre vulnerabilidade; sua definição de punk rock; e seu novo companheiro de quarentena, um filhote chamado Mayhem.

Por que você acha que este álbum é a conclusão certa para a era Music For Cars da The 1975? A data de lançamento continuou sendo adiada, e agora o Notes está definido para sair durante esse período incerto.

Eu acho que se encaixa porque realmente não é o que a vida promete. O Notes realmente não fornece um tipo de resultado. Realmente não coloca uma definição em nada… Eu acho que é um pouco como o final de The Graduate, que é o meu final favorito de um filme de todos os tempos! Eles fogem e têm toda a coisa romântica, é lindo, é cinematográfico e é ideal. E então a câmera permanece neles enquanto estão indo embora no ônibus, [há] todas essas perguntas que você começa a perguntar: Para onde elas estão indo? Eles têm algum dinheiro? O que eles vão fazer amanhã?… Eu acho que esse disco é assim também. Há momentos como [a música] Guys, em que olhamos para trás e é bem retrospectivo. Mas ainda há uma busca e um desejo e acho que nossos álbuns são sempre definidos por isso. Então, eles estão sempre ansiosos, inerentemente.

Você é tão vulnerável neste álbum, e isso se reflete mais notavelmente em suas escolhas de letras. A frase “A vida parece uma mentira, eu preciso que algo seja verdade” em Nothing Revealed/Everything Denied imediatamente vem à mente. Esta é uma escolha intencional?

Na verdade não – apenas acontece por procuração. Toda vez que faço um disco, coloco tudo nele, então, quando gravo o próximo, é claro que sou uma pessoa um pouco diferente. Mas não é que o poço esteja seco. É que as coisas das quais tenho que escrever se tornam hiperespecíficas ou realmente fundamentais.

Então, as coisas sobre as quais eu estou falando hoje em dia nos meus dois últimos álbuns, desde que eu realmente passei por muitas coisas superficiais como o ego, agora são sobre propósito e verdade. Os grandes assuntos, os grandes temos, os grandes ingredientes para o pensamento existencial. Provavelmente eu poderia me expor sendo mais vulnerável em outros lugares, mas acho que os locais em que mostro minha vulnerabilidade são aqueles com os quais todos se relacionam. Isso me define, mas quase define mais [você] porque você fica um pouco tipo: “Caralho, eu gosto disso porque é assim que eu me sinto”.

A única vez que meu ego sai é quando estou destruindo-o com uma marreta. Sempre há uma piscadela ou um aceno ou um conhecimento no que estou fazendo. Algo como The Birthday Party ou Roadkill, há alguns trechos lá. Eu acho que é porque não estou mais desconstruindo tudo com a lente pós-moderna. Sinceridade é a coisa mais importante.

Qual foi a sua abordagem quando se tratou de se envolver e mudar dentro de tantos gêneros diferentes neste álbum? Tem gospel, dancehall jamaicano, sons ambiente, synth-pop dos anos 80…

Eu não cresci querendo estar em uma banda em particular – eu cresci querendo estar em todas as bandas. Eu não conseguia decidir uma coisa porque amava as coisas pelo que elas eram. Então, para mim, não era sobre a minha capacidade. Acho que as pessoas aprendem também, especialmente na Inglaterra, que se você é bom em uma coisa, isso diminui sua capacidade de ser bom em outra. [Mas] é música no final do dia – é tudo música. E eu entendo o que é. Sim, eu posso fazer algo que soa como Orange Juice ou Peter Gabriel, mas também posso fazer algo que soa como a porra do Boards of Canada ou posso fazer algo que soa como Glenn Branca porque amo música. Nós consumimos música de uma certa maneira e criamos música exatamente da mesma maneira.

Existe uma música específica que mostra como todos vocês querem ser todas as bandas?

Você pode ouvir em People – obviamente influência do Refused. Ou se você ouvir Bagsy Not In Net, é The Streets. Eu acho que os artistas que eu falo há muito tempo, The Streets, My Bloody Valentine, Brian Eno, Sigur Rós – estão sempre lá. Eu quero que minha banda seja desse tipo de coisa. Suponho que nessa busca eu aprenda o que todas essas coisas eram para mim e agora tornou-se um vocabulário musical.

Algum momento memorável ao fazer este álbum? Algum tipo de momento “aha” que você teve com uma letra específica?

Deus, foi um longo período. Lembro-me de fazer People no ônibus – esse foi um momento em que sabíamos que estávamos no caminho certo. Muito disso foi divertido e legal – Me & You Together Song aconteceu muito rapidamente. Eu escrevi em uma noite e estava pronta, então foi realmente muito bom. Lembro que Frail State of Mind e Then Because She Goes foram as duas primeiras faixas do álbum, e assim que eu tive essas duas músicas, fiquei tipo: “Ok, acho que entendo esse álbum”. É como uma Polaroid desbotada de Garage e música emo preguiçosa. Eu pude ver o disco através dessas duas músicas.

Como foi trabalhar com Phoebe Bridgers para a primeira colaboração gravada da The 1975? Por que você achou que era o momento de incluir uma faixa como essa?

Foi apenas uma coisa natural. Eu escrevi essa música e sou um grande fã de Phoebe, então começamos a conversar. Eu não estava pensando nisso como uma colaboração ou algo assim. Foi apenas um tom incrível de se ter no disco. E então ela foi muito legal e adorou a música. Então eu a peguei para cantar um monte de coisas e fiquei tipo, “Porra, isso é bom, toda harmonia que eu não gostar, vou pedir para Phoebe fazer”. Era meio que simples assim. Nós ficamos juntos, ela e George [Daniel] são amigos, então sim, era simples assim.

É claro que a internet é mais do que apenas uma musa para todos vocês. Como o seu relacionamento com a Internet progrediu até agora? Seus pensamentos sobre isso muitas vezes têm sido realmente relacionáveis ​​com seus ouvintes.

Eu passei a adolescência na pré-internet, estava lá pouco antes de toda essa merda acontecer. Eu acho que a internet, para mim, é incrivelmente fascinante. No momento, há muito Zoom, FaceTime e outras coisas. As pessoas estão usando isso como a ideia original, que era estender nossos relacionamentos preexistentes para que você possa conversar com a porra da sua mãe quando ela estiver de férias, ou você pode conversar com Barry do trabalho quando ele estiver na China. Tratava-se de ampliar a comunicação pré-existente. Não era sobre o que as mídias sociais se tornaram em geral, como esse fórum enorme.

Estamos em um lugar interessante agora, onde haverá muito investimento financeiro nessa idéia utópica original, porque as pessoas estão fazendo isso agora. Tivemos, digamos, o “mundo real” tirado de nós. Tivemos comunicação e tato tiradas de nós. Portanto, a primeira coisa que tentamos é replicar qualquer coisa que não temos online. Ninguém nem sabia o que diabos era o Zoom há alguns meses e agora é a coisa, então isso vai ter um investimento enorme. Eles trabalharão como o Zoom 3D agora. O que eu estou falando é a idéia de expandir a proximidade e a tatilidade e isso está acontecendo muito no espaço online. E acho que será acelerado por causa do que aconteceu agora.

O que você acha que é sua responsabilidade agora como artista?

Não sei, não tenho uma responsabilidade específica que é colocada em mim. Eu sinto que venho do punk e do hardcore, e isso foi sobre a idéia de que, se você estiver nesse palco, faça com que isso signifique alguma coisa. Todas as idéias que estavam ao meu redor, que estavam alimentando muita música em que eu estava – tratava-se de enfrentar ideias que promoviam a desigualdade, e isso acontece em um espaço pequeno. Eu acho que é assim que eu me sinto. Quero dizer, não preciso tentar nem nada. É assim que as coisas são.

A coisa toda é que eu uso a beleza como a ferramenta mais nítida que temos para transmitir ideias. Você mostra a alguém algo bonito, então eles se sentam e ouvem. Você então tem a oportunidade de apresentar a eles um dilema ético – essa é minha nova versão do punk rock. Apenas vem de um lugar de querer inspirar pessoas, mudar o indivíduo e, portanto, mudar o mundo.

A faixa de abertura com Greta Thunberg e seu discurso sobre mudança ecológica é uma mensagem realmente oportuna hoje. Há algo que você esteja lendo, assistindo, ouvindo em quarentena, que possa influenciar o futuro da The 1975?

Eu estou jogando no momento. Estou realmente interessado no espaço digital, para ser sincero com você. Estou interessado em novos conteúdos, seja o que for. Você sabe como os filmes podem ressoar com você de uma maneira que os jogos não podem, e os jogos podem ressoar com você de uma maneira que a música não pode, e a música pode ressoar com você de uma maneira que a literatura não pode? Quero sintetizar tudo isso – quero algo em que você possa experimentar uma narrativa da maneira que faz em um filme e se relacionar com a tomada de decisão e a interface da maneira que faz com um jogo incrível e você pode se relacionar com a música da maneira que faz quando a cria. Esta é uma experiência que estou interessado em curar. Muitas das coisas da The 1975 serão apenas minhas experiências com o espaço digital, onde quer que seja, como VR.

Você teve um cachorro durante a quarentena chamado Mayhem. Como está treinando ele?

Ele é realmente um bom menino! Ele está sendo muito bom – ele é um grande cão. Eu tenho a responsabilidade de tê-lo realmente treinado. Eu gosto muito de cães realmente treinados – odeio cães que não são bonzinhos. Isso me deixa louco porque sinto pena deles. Não tem desculpa!

 

Quando The 1975 lançou Frail State of Mind em outubro passado, a letra de abertura, “Go outside? Seems unlikely”, parecia uma letra típica de Matty Healy: emoção pesada, batida leve. Agora, ele diz, que é um dos muitos momentos do quarto álbum da banda, Notes on a Condditional Form, que adquiriram uma ressonância estranha. “Este álbum faz a mesma pergunta que o último disco”, diz ele. “O centrismo vai aguentar? Isso é estranho? É um pouco assustador. Vai ser lançado em um momento em que isso parece bastante justificado.”

Bem, sim. Em uma linha do tempo mais interessante, The 1975 seria a atração principal nas arenas dos EUA e desfrutaria de toda uma agenda antes do lançamento enquanto você lia isso. Muitas coisas. Quando o isolamento apareceu, Healy se perguntou onde ele mais queria estar. Sempre que ele não está fazendo música, ele tem “uma falta inerente de propósito”, então ele foi direto para o estúdio residencial da banda em Northamptonshire com o baterista e co-produtor George Daniel. Depois de terminar alguns trabalhos de produção, os dois começaram a brincar com o novo material da The 1975.

A situação atual se infiltrou nas letras – para um compositor tão afinado com o ruído de fundo da sociedade quanto Healy, como poderia ser diferente? – mas ele está pisando em ovos. “Yannis, do Foals, disse outro dia que não há prêmio para a primeira pessoa fazer um álbum sobre o Corona”, diz Healy, rindo, quando nos encontramos no FaceTime. Ele está no modo bunker: cabelos desgrenhados, camisa folgada, um pouco de barba por fazer, um maço de cigarros por perto. “Não estou interessado em declarações reativas. Estou interessado em viver em um ambiente e depois refletir como foi. Quero ver como serão as conversas e no que as pessoas se transformam.”

É de se admirar que The 1975 ainda tenha alguma carta na manga após as Notes On a Conditional Form. Anunciadao há dois anos como uma peça companheira do vencedor do BRIT’s A Brief Inquiry Into Online Relationships, suas 22 músicas levaram 19 meses em 15 estúdios em quatro países. Mais do que o Tusk de Fleetwood Mac e apenas alguns minutos a menos do que o White Album dos Beatles, ele apresenta, entre outras coisas, Greta Thunberg, FKA Twigs, um dueto com Phoebe Bridgers sobre homossexualidade reprimida na América, um diário de turnê country-rock, uma canção de amor shoegaze, um hino house liderado por Cutty Ranks e uma canção escrita pelo pai de Healy há 30 anos. Os temas principais, diz Healy, são “ansiedade, violência e beleza inatingível”.

Ele acha que é o melhor álbum da The 1975; é certamente o álbum mais The 1975. Longe das típicas músicas radio-friendly, o álbum reduz à reputação da banda de soar como algo e não ser nada: uma consequência inevitável do cérebro giratório do vocalista. Pensamentos voam dele como faíscas em uma roda. Se essa compulsão de dizer o que está em sua mente faz dele uma figura divisória – para alguns a representação de uma geração, para outros uma simples boca pretensiosa -, que assim seja. “Eu não sou um abacate”, diz ele com precisão. “Nem todo mundo me acha incrível.”

Não havia um plano para fazer um disco tão amplo; eles simplesmente não queriam parar. “Eu estava conversando com Brian Eno sobre isso outro dia”, diz Healy, meio que se desculpando pelo namedrop (ele entrevistou a Eno para uma nova série de podcasts). “Estou na mesma banda há 17 anos. Nós gravamos e moramos juntos. Portanto, não nos esforçamos para sermos ousados; estamos apenas evitando ficar entediados.”

A faixa final, Guys, é uma doce canção de amor dedicada à banda que ele formou no colégio Wilmslow em Cheshire: “A melhor coisa que já aconteceu.” Este é o primeiro álbum em que ele se permitiu olhar para trás. “Há muita pauta sobre a vida aos 30 anos neste álbum”, diz Healy, que completou 31 anos em abril. “Like All My Friends do LCD Soundsystem: olhando minha cena olhar para trás.” Isso significa refletir sobre sua vida e as escolhas que ele fez. “Meus 20 anos foram um caos e eu não vivi uma vida doméstica, então há muitas coisas que simplesmente não aprendi. Eu não sou emocionalmente maduro. Houve momentos em que isso prejudicou meus relacionamentos [ele se separou da modelo Gabriella Brooks no último verão] e eu me pergunto: ‘Por que valorizo ​​tanto minha carreira?’ Estou tentando abandonar essa ideia. Quero ter um período na minha vida em que não estou em conflito com isso.”

Healy diz que está tentando evitar qualquer atividade que não sirva diretamente à música da The 1975. Em março, ele postou no Twitter uma piada espetacular sobre a mídia social (“Pare de dizer às pessoas para apoiá-lo, não queremos seu EP nem seu zine agora Laura, vamos morrer”) que provocou acusações desagradáveis de privilégio e o fez querer ficar quieto. “Talvez tenha sido meu último problema no Twitter”, diz ele. “Não é que eu tenha me queimado por isso – eu não dou a mínima, eu sou cancelado toda semana – é que eu estou mais interessado em minha declaração de longo prazo. Estou confortável em lançar um disco, mas não em me promover. A ideia de autopromoção superficial realmente chama a atenção das pessoas no momento, porque parece frívola.”

A atual crise de propósito entre as celebridades o fascina. Como filho de dois atores assombrados por tabloides, Tim Healy e Denise Welch, ele diz que nunca achou a fama exótica. Parecia uma chatice. “Eu não sinto a necessidade de estar presente na cultura, a menos que eu tenha uma música. Muitos artistas descobriram que esse vazio enorme foi criado e pensam: ‘O que posso fazer para ocupar o espaço que normalmente estava preenchido? Vou fazer um cover de Elton John no Instagram.’ Foi criada essa nova cultura de conteúdo. Tenho sorte de ter um álbum sendo lançado e é um álbum sobre esse tempo e esse tipo de ideia.”

Recentemente, Healy atraiu um escrutínio mais intenso, tornando-se mais politicamente franco. Desde que The 1975 lançou as duas primeiras faixas do novo álbum no verão passado – o protesto-punk People e o monólogo de Greta Thunberg com música – ele deve se posicionar sobre tudo. Quando você é célebre por espalhar opiniões como uma mangueira de incêndio, suas omissões levantam suspeitas. Ele acha que a frase mais engraçada do álbum vem de Roadkill: “I took shit for being quiet during the election and maybe that’s fair, but I’m a busy guy.” (Me julgaram por ficar quieto durante a eleição, e talvez isso seja justo, mas eu sou um cara ocupado).

“Para ser sincero com você, fiquei tão desiludido”, diz ele. “Não gosto de Jeremy Corbyn, não gosto de Boris Johnson, não confio em nenhum deles. O que quero dizer é: sim, eu sei, mas estou fazendo a minha parte. Comece por outra pessoa.” Escolha suas batalhas, ele aconselha outros artistas, mas escolha alguma coisa. “Se você deseja se envolver na criação de coisas, esteja preparado para dizer algo, porque as pessoas estão sentindo uma verdadeira sensação de inutilidade. Acho que depois disso haverá um sentimento pós-guerra. Não consigo imaginar algo superficial mudando o mundo.”

Esse é o tipo de grande pronunciamento que agrava os céticos, mas Healy costuma ser seu crítico mais agudo. Ele usa o diálogo em suas músicas – meio real, meio inventado – para se interrogar. Integral ao seu compromisso com a honestidade e a autoconsciência (“Se você está fazendo arte, as coisas que você quer descartar são provavelmente as que você deve lançar”) é o conhecimento de que honestidade e autoconsciência podem se transformar em mais uma rotina se você não for cuidadoso. “As pessoas que compartilham demais porque acham que é agradável podem ser bastante exaustivas. A autodepreciação está tudo bem, se for real, mas algo performativo é irritante. Se as pessoas sentirem que você está com a curadoria da perspectiva delas, irão pensar: foda-se, apenas me diga a verdade.”

Atualmente, grande parte dessa curadoria de personalidade ocorre online. Healy é um dos poucos compositores que pode examinar a cultura da Internet sem deixá-lo paralisado de vergonha, porque a música dele soa da maneira que o mundo moderno se sente: superestimulado, oscilando entre emoção e ansiedade. “O tema principal em meus discos é a comunicação e aconversa”, diz ele. “Deus, céu, inferno, reencarnação… são todas idéias incríveis, mas a única coisa que realmente vai acontecer é esta: eu e você, conversando e pensando sobre isso. Como fazemos isso e por que fazemos isso é o que realmente me interessa.”

Agora, estamos sendo forçados a viver online como nunca antes – um desenvolvimento que Healy considera surpreendentemente benigno. “Está quase se aproximando da ideia utópica e original da internet, que é a extensão de relacionamentos pré-existentes. A internet é um enorme experimento social que nos deu a liberdade de fazer qualquer coisa, e parece que o que queremos é um ambiente para nossa raiva e ansiedade, mas não foi para isso que foi inventada.”

Healy também tem pensado em como a música vai mudar. Antes da crise, muitos artistas estavam conversando sobre como reinventar a música ao vivo de uma maneira mais ambientalmente sustentável. Healy, que participou da criação do atual show da The 1975, acha que o reinício rígido do setor forçará esse sentido. “Os shows estão no fim. Acabou” – ele diz, acenando com o cigarro. “Precisamos mudar a porra do mundo. Na música ao vivo, as portas não serão abertas por fora. Eles vão ser chutadas por dentro por pessoas como eu, Alex Turner e Dua Lipa. Trata-se de sacrificar a maneira como as coisas costumavam funcionar, porque elas não funcionam mais.”

Os shows certamente não funcionam no momento. Para The 1975, a agenda difícil que acompanha um grande lançamento chegou a um impasse. Sem shows, aparições na TV, propagandas em outdoors. Notes On a Conditional Form simplesmente aparecerá online e permanecerá ou cairá por seus próprios méritos. Healy fez as pazes com isso.

“É importante para mim que esse álbum pareça ter sido lançado em outro momento. O que as pessoas estão entusiasmadas agora é fundamental, como dar um passeio, como poder ver sua mãe. Por isso, eclipsou todas as agendas superficiais que costumamos fazer em torno de um disco.” De certa forma, isso parece adequado. “Fiquei obcecado com a ideia do fim de uma era e entrar em uma nova década. Essa porra se parece com isso. Estamos em um mundo novo.”

Em algumas resenhas anteriores do álbum, as pessoas já entenderam como algumas das músicas falam sobre seu relacionamento com sair de casa. Eu realmente não percebi isso até esse isolamento, mas esse é um tema recorrente nas suas letras ao longo de sua carreira, em músicas como Love Me ou Give Yourself a Try. É algo que você tem experiência? Você pensa diferente agora em quarentena?

Acho que sempre lidei com a ansiedade social – tendo a performance como trabalho – em uma espécie de paradoxo na minha vida. Não é como se eu estivesse socialmente ansioso, é apenas que eu escolho não sair na maior parte do tempo. Você sabe, quando saio, normalmente fico bem. É esse sentimento que existe dentro da minha cabeça, e minhas emoções e reações fazendo parte de um processo de pensamento que pode ser fraturado em sua essência. Eu acho que estou sempre prestando homenagem à ideia de “É isso que eu penso, mas eu nem sei se acho certo”, você entende o que eu quero dizer?

Existe algum tipo de conforto nessa escolha que está sendo tirada de você neste período de quarentena? Uma certa tranquilidade em não ter que escolher sair, em ter que fazer algo ou ser alguém?

Eu não sei. Eu acho que estou meio que – não tenho literalmente medo de sair. Eu apenas sinto que agora, estou mais consciente do… cultivo do meu próprio mundo, em oposição ao desejo constante de curar o mundo em geral. Você sabe, a política começa em casa, e não é que eu não defenda as mesmas idéias em casa que eu faço em público, é apenas que sinto que passo muito do meu tempo tentando mudar o mundo. E talvez eu deva passar mais tempo tentando mudar meu mundo, e tentando curar o meu mundo, manter relacionamentos, esse tipo de coisa.

Existe algo que te empolgue com a ideia de lançar um álbum em quarentena?

Eu gosto da ideia de que isso meio que solidificou meu desejo de realmente ter expressões longas. Tipo, mesmo no ano passado, minhas mídias sociais ou minha presença fora da música – o que não é muita, porque está tudo alinhado com a minha música – minha presença fora dos meus álbuns se tornou muito mais parecida com informações ou, piadas. Fora isso, as opiniões são deixadas para os meus álbuns, ou conversas em formato longo. Então, suponho que esses podcasts e os álbuns… não quero fazer nada de interesse próprio, porque não tenho mais esse interesse pessoal. Então eu acho que o disco não é interesseiro. Os podcasts que eu faço não são interesseiros. E a ideia é a seguinte: eu gosto de trabalhar para criar um ambiente para mim, onde eu possa apenas ter expressões longas e ser feliz com isso. E eu meio que cheguei nesse patamar.

Portanto, você não consideraria Notes On a Conditional Form um disco de interesse próprio? Estou curioso como você quantifica isso.

Bem, não quero dizer que não seja um disco auto-indulgente. Mas não tem muito ego. E isso não discute muito o ego. E se isso acontece, é mais uma espécie de desconstrução. Suponho que seja indulgente na maneira que realmente não nos importamos tanto em ser longo e sinuoso… só que não é particularmente consciente de si mesmo, é isso. Não tem postura ou tentativa de ser alguma coisa, nem tenta construir uma opinião sobre o que é, entende o que quero dizer? É um disco muito livre e tem muita humildade. Você sabe, eu não estou lidando com as mesmas coisas que eu estava lidando nos [meus discos anteriores]. Você mencionou Love Me, por exemplo – é muito sobre o meu ego e como estou negociando com ele, e como ele se manifesta na cultura pop como uma espécie de versão exagerada do que realmente é. Essas idéias simplesmente não estão tão presentes no meu trabalho agora.

Há cinco anos, você disse que a maneira como você mede o sucesso da banda é a resposta dos fãs na turnê – nos shows e nas vendas de ingressos. Então, quando você lança um novo álbum e a turnê ainda está longe de acontecer, como você mede o desempenho do álbum e se está trazendo a você o que você quer na sua carreira?

Suponho que eu estava falando [na época] no contexto de nos tornarmos uma banda muito, muito grande, mas ainda sermos um banda cult. Nós ainda meio que somos. Eu só acho que – eu ainda estava impressionado que lotávamos aqueles lugares. Não gastei muito tempo ouvindo rádio, não gastei muito tempo fazendo isso e aquilo. Então foi assim que eu quantifiquei na época. Então acho que agora, como é um pouco diferente, vejo nosso alcance em lugares diferentes. Eu vejo nossa influência em lugares diferentes. Eu acho que esse disco serve agora, para ser sincero. Faz um pouco de sentido, parece quase justificado.

Você viu que If You’re Too Shy (Let Me Know) se tornou seu maior hit nas paradas? 

Oh, sério? Onde, na América ou algo assim?

Não, no Reino Unido, estreou em 14. Superando The Sound. 

Ah, sério? Entendi. Sei lá. Na minha gravadora, presto muita atenção a esse tipo de coisa – não quero alegar ignorância e ser, fofo e burro, tipo, “Oh, eu não sabia!” [Risada falsa]. Não, eu meio que sabia… mas tipo, se eu prestasse muita atenção à métrica da The 1975, eu ficaria estressado . Essa não é minha vibe. É engraçado, porque tipo, quando são outros artistas, eu meio que trabalho como um profissional… Eu não tomo liberdades ou qualquer coisa desse tipo. Mas quando se trata da minha banda, eu ainda ajo como um pirralho de 18 anos, você entende o que eu quero dizer? [Voz desagradável de adolescente] “Eu não quero fazer isso, isso é idiota!” Eu sou assim na minha banda. Então, se eu começar a me preocupar com os hits…  E quem dá a mínima? Eu nem queria lançar Too Shy. Não me pergunte. Eu não sei.

O que você quer dizer com isso? Você não achou que era um single?

Eu sempre tenho que me deixar ser um pouco infantil. Porque, tipo, eu sei que as pessoas iriam adorar essa música. E eu sei que é um bom single e etc. Mas, para ser sincero com você [quando se trata de singles], preciso ser realmente emocionalmente guiado. Na verdade, eu sei o que é um bom single, sei que Too Shy é uma boa música, só acho que, atualmente, percebo que as pessoas precisam de música assim – enquanto eu sinto a música que quero lançar é bastante difícil. Mas isso não é o que importa… a vida é mais do que isso.

Você sente que músicas como Too Shy lhe dão capital para lançar músicas como People? Obviamente, People provavelmente não estava destinada a ser um grande sucesso nas paradas, mas ter uma música como Too Shy esperando dá a você a chance de seus fãs e aos que tomam a decisão dizerem: “Deixe-me colocar este single, quero me expor primeiro e, eventualmente, chegaremos a Too Shy“?

Quero ser sincero com você, não. Porque lançamos quando terminamos,. Quero dizer, Too Shy demorou um pouco e veio mais tarde. E para ser justo, nós sabíamos: “Oh, seria essa estar no álbum”. Porque, para ser justo, o que realmente acontece é que sempre escrevemos uma dessas músicas, tipo todos os anos, em todos os álbuns, escrevemos The Sound ou It’s Not Living, como um [hit] da The 1975 por excelência… acho que essa é uma parte muito grande do nosso DNA. E acho que isso acontece quando nos divertimos. Então eu fico tipo, “Nós não deveríamos estar nos divertindo! O mundo está pegando fogo!” Mas você sabe, talvez devêssemos nos divertir.

No início do processo, você sabia que esse seria o seu maior e mais longo álbum?

Bem, nós realmente não sentamos e conversamos sobre exatamente por que essa música deve existir ou o que seja. É apenas sobre a emoção que isso nos traz. E então nós basicamente adicionamos a uma playlist, e meio que a colocávamos no modo aleatório em “músicas recentes” ou o que quer que seja, e deixávamos tocar. E então você meio que tira o que não gosta. E então, quando fizemos isso três vezes, sempre acabamos com as mesmas 22 faixas. Então, essa foi a resposta, sabe?

Existe alguma ideia de que algum dia The 1975 fará sua versão do Is This It do Strokes? Você sabe, apenas 11 músicas, 37 minutos, um padrão sonoro que meio que dá certo? 

Muito! Sim, é engraçado você dizer isso. Suponho que sempre quero me desafiar como artista. E eu realmente não pensei sobre a forma até agora, porque eu apenas faço álbuns, e faço álbuns da maneira que quero fazê-los. E suponho que talvez seja um desafio para mim. Eu realmente não tinha pensado nisso, mas talvez fazer um disco linear, Spirit of Eden [Talk Talk]  ou Hats do Blue Nile…  Sim, acho que isso seria um desafio. Eu gostaria de fazer um disco assim.

Você já falou sobre você e George fazerem um disco totalmente eletrônico. Você se sente mais confortável em integrar essa parte da sua produção nos álbuns da The 1975, ou isso ainda é algo que você está pensando pouco?

Tipo, em parte percebemos que nossa identidade como The 1975 é realmente muito abrangente. Portanto, não precisamos nos preocupar tanto com isso. Mas eu acho que um disco ambiente virá algum momento da nossa carreira, porque esse é o tipo de música que ouvimos, sabe? 

Eu queria perguntar sobre alguns dos temas relacionados à sua sexualidade no disco – que é uma discussão pela qual você teve alguma reação no passado, algumas citações suas talvez sejam tiradas de contexto. É algo que você ainda faz questão de mergulhar, mesmo sabendo que podem haver muitas perguntas sobre isso?

Me & You Together Song é baseada em um personagem. Portanto, não estou realmente preocupado com isso levantar questões sobre minha sexualidade. Eu acho que sempre fui meio hétero sem fragilidade, e pensei que isso era óbvio… acho que as pessoas desejavam que minha sexualidade fosse muito mais interessante pare mim do que é. E as coisas que eu meio que comentei foram sobre a perspectiva externa, e por que talvez eu esteja confuso sobre isso.

Mas em uma música como Jesus Christ, você está cantando diretamente sobre uma história de amor homo afetiva. Eu não sei se isso também é considerado personagem, ou…

Oh, isso… bem, sim, acho que sim. Quero dizer, é um pouco coincidente – talvez seja algo que está acontecendo que seja freudiano em minha mente, não sei o que está acontecendo. [Risos] Mas eu acho que com essa música, a maneira como ela realmente surgiu é que existia uma versão musicalmente, mas duas versões diferentes liricamente. Então era tipo… uma versão era sobre um tipo de complexo prisional, e outra versão sobre opressão religiosa na juventude da América. É basicamente sobre isso que as duas versões eram. E depois, eu meio que as arrumei e fiz uma música com isso. E então é meio interpretativa e interessante, de modo que essa linha vem de um tipo de lugar de… triste solidão e remorso por ser alguém em um lugar onde você não pode ser. E acho que é uma ideia bastante internacional.

Você ficou surpreso que as pessoas se apegaram à letra de Pinegrove em The Birthday Party da maneira que fizeram?

Bem sabe de uma coisa? Você é o terceiro jornalista a mencionar isso, e…

Bem, é uma letra feita sob medida para os jornalistas fazerem perguntas.

Ah, é isso! Tipo, eu não estou mais muito no Twitter, e não sei onde muitas dessas discussões acontecem. Mas vejo que o mundo dos jornalistas de música é bastante parecido com o Twitter. E há muitas pessoas que eu sigo e coisas assim. Mas o fato de ter sido uma discussão entre jornalistas só me chamou a atenção agora, quando as pessoas comentaram. Na verdade, eu nem sei o que as pessoas estavam dizendo. Para mim, eu pensei que era obviamente uma letra sobre uma época e as pessoas não sabendo o que fazer, basicamente. Era meio que todo mundo na minha idade, 28 a 32 anos, na cena do rock indie, e sem saber o que diabos estava acontecendo, você entende o que eu quero dizer? Novamente, como toda música da The 1975, ela não expressa uma opinião. Tipo, nenhuma das minhas letras expressa opiniões, a menos que sejam sobre mim. Tipo, Love It If We Made It – eu nunca seria capaz de gravar discos como A Brief Inquiry se estivesse cantando: “Isso está errado, esse cara é um idiota…” Eu apenas faço perguntas. Eu só gosto de apontar o que vejo ao meu redor. Até falei com Evan [Stephens Hall, vocalista do Pinegrove] sobre essa letra de antemão, e ele até gostou e ficou bastante interessado na música. Mas ainda não sei o que as pessoas estão dizendo. Suponho que seja interessante referenciar isso, mas é claro que eu referenciaria isso! Era uma coisa enorme que estava acontecendo na época.

Como é que você se sente sobre The 1975 estar mais envolvida na discussão crítica, e sendo mais aprovados pela crítica, do que eram em seus dois primeiros discos? Isso é desconcertante para você? Ter aclamação universal muda seu relacionamento com a música que você está fazendo?

Provavelmente mudou, no começo. Mas o fato de não ter acontecido provavelmente significa que somos a banda que somos agora. É difícil aceitar, entendeu o que eu quis dizer? Quero dizer, não é difícil, mas você precisa realmente acreditar em si mesmo se fizer uma declaração e, em seguida, as pessoas ficarem tipo: “Não, foda-se!” Ou você busca essa aprovação ou pensa: “Foda-se, você literalmente não sabe do que está falando!” e se afaste meio que rindo. E foi isso que fizemos. Mas, honestamente, isso é legal. É como uma bela sessão de fotos ou um belo carro que te pega no aeroporto. É tipo, “Isso é legal!”. Mas eu realmente não me importo. Porque se eu me importasse, não seria capaz de gravar.

Existe uma parte de você que quase sente falta de ser mais divisora ​​da crítica? Uma parte de você que só acha que está fazendo algo certo quando nem todos concordam que o que você está fazendo é bom?

Ah, as pessoas ainda não gostam de nós, com certeza. Mas, para ser sincero com você… eu acho que somos uma banda de verdade! Então, eu ficaria desconfiado se, tipo, todo mundo nos odiasse. Seria tipo, “Vocês estão errados!” Somos uma banda foda. Acho que gosto de [aprovação da crítica] porque gosto de cultura. E eu gosto de ler  Pitchfork – eu leio o que a Pitchfork escreve sobre outras pessoas e coisas assim.

Eu quero saber tudo o que há para saber sobre Guys. Qual foi o momento que a inspirou?

Eu realmente não consigo me lembrar. Aconteceu muito naturalmente, eu acho. Eu não sei por que, eu apenas pensei [cantando] “Foi a melhor coisa que já aconteceu”- o quê? E então percebi, bem, foi essa a melhor coisa que me aconteceu . Começar esta banda. E eu percebi que muitas músicas de amor são escritas da perspectiva de nossos relacionamentos românticos, como os relacionamentos formativos em nossa vida. E acho que muitos de nossos relacionamentos são platônicos, nossas amizades são coisas pelas quais devemos prestar homenagem. Porque nós realmente não prestamos homenagem a isso tanto, na arte, sabe?

O que os meninos tinham a dizer sobre isso quando ouviram?

Tipo, você sabe. Somos todos muito amorosos, mas somos todos homens no final do dia. Então foi muito, tipo, “Oh, isso é legal.” Nem comentamos muito sobre o que acontecia, porque tínhamos que terminar a música, sabe?

Você está preocupado com o fato de haver uma época em que você está tocando a música no palco, enquanto acabou de brigar nos bastidores – tipo, Adam está olhando para você e você está meio chateado com George – vai ser estranho ainda ter que tocar essa música incrivelmente sentimental sobre as três pessoas com quem você está no palco quando nem sempre se sente assim? 

Quero dizer, acho que estamos chegando aos 18 anos juntos agora – é a mesma formação. Então, se nós estivéssemos [sempre brigando], não poderíamos chegar ao ponto em que gostaríamos de escrever uma dessas músicas, sabe o que quero dizer? Então eu acho que agora, não vai acontecer isso. Não somos assim – nós somos como uma família. E talvez eu pareceria ingênuo [na música] se estivéssemos juntos há cinco anos. Mas estamos perto dos 20, honestamente. Então, sabemos o que se passa. Nós sabemos o que é importante. Nós sabemos quem somos. Não haverá brigas nos bastidores, posso te garantir.

Eu queria perguntar sobre os podcasts da semana passada. Então, dentre os sete – obviamente, essas são suas lendas e heróis pessoais – qual deles realmente o deixou mais nervoso antes de atender o telefone?

Kim Gordon. Não sei por que, acho que o tipo de adolescente em mim saiu. Connor [Oberst] é um amigo meu, Mike [Kinsella], nós meio que falamos antes, Brian [Eno] nos conhecemos e já tivemos uma dessas conversas antes. E eu ouvi dizer que Stevie [Nicks] era uma grande fã. Com Kim, ela ainda parece ser o tipo de garota cool. Ela é muito gentil, como moça, realmente adorável. E ela não é como uma hipster pretensiosa. O que não é o que eu pensava. Mas eu fiquei tão intimidado com o quão legal ela é. Não é que eu não achasse todo mundo super legal, esses são literalmente todos os meus maiores heróis.

Havia alguém com quem você esperava entrar em contato para a série, mas que não apareceu no último segundo?

Ah, houve algumas pessoas que nos deram um “não” muito, muito legal. Harriet Wheeler do The Sundays. Foi muito difícil encontrá-la, e eu consegui, e ela me enviou um lindo e-mail, apenas dizendo que realmente não está fazendo esse tipo de coisa – especialmente não agora. Mas ela é muito grata e ama nossa música e todo esse tipo de coisa, então fiquei realmente emocionado com isso. E Mike Skinner, do The Streets, que é meu amigo. Ele foi o único que não participou! [Risos] Recebi um duro “Não” de Mike. Eu queria ligar para ele e dizer “Mike, o que diabos você está fazendo?!” Ele simplesmente não está interessado em falar de si mesmo.

Em sua entrevista com Bobby Gillespie, ele falou sobre como, agora que está ficando mais velho, há artistas que estão cantando coisas sobre jovens e ele simplesmente não tem interesse nisso. Você tem apenas 31 anos, mas já existe música que você ouve e pensa: “Ok, eu já estou velho demais para isso?”

Não na música. Para ser sincero com você, eu apenas consumo coisas que acho interessantes porque são realmente novas. É por isso que estou procurando coisas, então estou sempre olhando para o estranho, esotérico e jovem. Uma exemplo é a música Death Bed – há uma música [de Powfu] com um sample de beabadoobee, que está na nossa gravadora Dirty Hit – um grande sucesso agora. E venho monitorando isso como um dos drivers criativos de nossa gravadora, monitorando isso no TikTok, que é um dos grandes drivers que foi descoberto agora. E então metade do conteúdo do TikTok, sinto não é apropriado para mim. Tipo, que eu não deveria estar assistindo a isso, parece que são apenas adolescentes se sexualizando, e eu me sinto como um pedófilo do caralho… Eu não preciso me envolver com isso.

Parece que as duas pessoas com quem você conversou que estão mais próximas dos dois pólos da sua identidade artística são Brian Eno e Stevie Nicks. E ambos deram alguns elogios muito legais: Eno dizendo que Love It If We Make It era o tipo de música política que ele desejava poder escrever, e Nicks lendo a letra de She’s American para você como poesia. Recentemente, me interessei pela ideia da síndrome dos impostores, da qual algumas das pessoas mais inteligentes e talentosas que conheço sofrem. Estou curioso, quando você tem seus ídolos absolutos dizendo coisas incríveis para você sobre suas músicas, a sua primeira reação é: “Isso! Eu sempre soube que era bom!” ou é “Oh, acho que os enganei”?

Ummm… [sopra os lábios]. Eu entendo completamente a ideia da síndrome do impostor. Mas é ativo comigo quando estou tentando criar. Não sei se olho para as minhas coisas antigas e falo: “Isso foi falso”. A síndrome do impostor funciona mais como, bem, você tinha algo que não tem agora. Você tinha uma vibe que você não tem mais… isso era porque você era jovem… você entende o que eu quero dizer? Eu realmente nunca estou olhando para as minhas coisas e desvalorizando-as. Tem mais a ver com olhar para a porra de um piano e dizer: “Eu não sei tocar piano! Que porra eu estou fazendo! Quem eu quero enganar?” Como eu estava dizendo para Stevie, você olha para esses artistas virtuosos e pensa: “Não posso fazer isso, sou literalmente um vigarista”. Então acho que às vezes você se sente meio inadequado. Mas esses momentos foram incrivelmente válidos, sim… Eu acho que Brian Eno expressando que eu era capaz de fazer algo que ele não fez, essencialmente – ou havia feito – foi um momento real para mim. Mas foram obviamente os dois elogios mais incríveis que eu já tive. Fleetwood Mac são como deuses completos entre as bandas. E Brian Eno, desde os 13 anos, é como meu herói.

Adorei a letra de Give Yourself a Try no último álbum, onde você pergunta: “O que você diria para o eu mais jovem?” Sei que não passou muito tempo desde que você escreveu isso, mas estou curioso se você diria alguma coisa que aprendeu nos anos seguintes ao Matty.

Eu não sei, cara. Eu acho que essa frase é meio engraçada, porque é a mesma coisa que toda a ideia do álbum, que é que eu estou sempre procurando algum tipo de resolução. Estamos sempre à procura de um final agradável, ou de um destino, ou chegamos ao local e conseguimos o que queremos. Eu acho que esse disco realmente fala, tipo, não é assim que é a vida, sabe? E é assim que é – você espera as coisas, mas a realidade é uma versão chata disso.

Então, você diria para ele parar de procurar finais?

Sim, suponho que sim.

Enquanto o planeta se agita com ansiedade e tristeza, Matty Healy parece surpreendentemente calmo, quase como se ele já esperasse isso, ou certamente não tivesse sido totalmente surpreendido. “É um momento muito, muito estranho”, diz ele por telefone, do estúdio de gravação no interior da Inglaterra, onde está em quarentena com o produtor-baterista George Daniel, seu companheiro de banda na The 1975 e principal colaborador criativo. E, no entanto, “não me sinto sozinho”, acrescenta Healy. “Essa pode ser uma das coisas com as quais realmente tenho dificuldade. Mas sinto que estamos nisso juntos. A humanidade está bastante envolvida no momento.”

É como se toda a inquietação que o atormentava e alimentava sua criatividade encontrasse sua correspondência neste momento atual. Healy sempre abordou grandes questões (mudança climática, saúde mental, política) através da música pop, e o álbum mais recente de sua banda, Notes On a Conditional Form, que sai em 22 de maio, é uma exploração amplamente ambiciosa da ansiedade existencial. Healy, 31, é uma mente pop inteligente, e a música de 1975 parece uma caçada pelo subconsciente. Essa intimidade com sua própria angústia é em parte o motivo pelo qual seus jovens e angustiados fãs o amam e ficam obcecados por ele (sua aparência de estrela do rock também desempenha um papel nisso).

Não é segredo que ele usava narcóticos. Drogas e entorpecentes, qualquer coisa que o nocauteasse. Ele “nunca foi o cara da cocaína às cinco da manhã”, diz ele. “A inconsciência é minha droga favorita.” Ele se sente acordado demais para muitas coisas: a heroína era um meio pelo qual ele conseguia conter a linha do tempo interminável do descontentamento que se desenrolava em sua cabeça. Mas ele tem um jeito de fazer com que até a heroína que fumava parecesse um fardo. “Eu precisava acordar de manhã, fumar um pouco, continuar fumando o dia todo, até o dia seguinte, e talvez então pudesse começar a adormecer e não me sentir mal”, explica ele metodicamente. “Mas se eu apenas fumasse à noite e fosse dormir… Ugh, que pena. Acordava com a pior ressaca de todos os tempos. E não lido bem com ressacas.”

Quando eu o conheci em novembro, nos bastidores de um show da The 1975 em Nova Jersey, ele ainda tinha os cachos castanhos e usava um vestido floral longo e um Chuck Taylors verde. Nesse ponto, a mudança climática era a melancolia de Healy. Ele me disse então que “se o mundo for para a merda, eu vou usar drogas”. Com o mundo, de fato, indo para a merda, ele admite que foi tentado. “Parecia uma desculpa para ficar chapado o tempo todo”, diz ele. “Mas eu consegui não ficar.” Ele ganhou um senso de missão. “Precisamos sacrificar as coisas; não há mais espaço para merdas”, continua ele. “E isso significa aderir às necessidades do planeta. É um novo momento agora.” Vindo de um dos narcisistas mais notórios do rock, isso soa um pouco como perspectiva.

Daniel e Healy começaram a tocar música com outros dois amigos do ensino médio, o guitarrista Adam Hann e o baixista Ross MacDonald, em 2002. Antes de se estabelecerem como The 1975 – o nome não tem um significado específico – eles se chamavam de algumas coisas; Me and You Versus Them, Drive Like I Do… Isso aconteceu na pequena cidade inglesa de Wilmslow, um subúrbio sofisticado de Manchester.

O mundo em geral ouviu falar deles pela primeira vez em 2013 com seu LP homônimo de estreia, que alcançou o primeiro lugar no Reino Unido. Eles tiveram uma ascensão rápida depois disso: o líder dos charts I like it when you sleep for you are so beautiful yet so unaware of it e o de 2018, elogiado pela crítica A Brief Inquiry Into Online Relationships, que coincidiu com uma breve recaída de Healy. Mas ele diz que está sóbrio há um ano, o que “mudou enormemente a dinâmica da banda”, diz Daniel. Quando Healy não está usando drogas, “a janela para o foco dele fica muito maior. Não é mais uma batalha.”

Até agora, todos os álbuns da The 1975 começaram com uma música tema auto-intitulada, quase liricamente idêntica e atmosférica. Mas para o Notes, Healy começa com Greta Thunberg entregando uma palestra de cinco minutos sobre crise ecológica. Todas as noites nos shows de sua banda no outono passado, quando ele deveria estar tocando um bis, Healy voltava ao palco sozinho, sentava nos amplificadores da banda, de costas para a platéia, e assistia o discurso.

“Todos os nossos discos são exatamente sobre o que tenho medo, do que estou animado, do que me excita, do que acho engraçado”, diz ele. Suas músicas fervilham de paranóia, não de catarse, com letras que ressoam com o descontentamento de jovens fãs e depois são vendidas com força, como inegáveis ​​hinos pop – no recente single People, ele canta: “Bem, minha geração quer foder Barack Obama / Morando em uma sauna com maconha legalizada.”

É o tipo de música que inspira os fãs a pará-lo na rua e contar seus segredos sombrios; ele às vezes acha a devoção um pouco demais. (“Na primeira turnê, eu vi um garoto com uma tatuagem da The 1975 no pescoço”, relembra Healy. “É loucura.”) Mas o que ele esperava quando faz uma carreira de compartilhar os seus próprios segredos? O estrelato moderno exige autenticidade e auto-revelação, o que significa envolvimento constante com os fãs nas mídias sociais. Uma performance no Instagram no início deste ano, fez Healy, que tem 1,4 milhão de seguidores, postar um meme criticando o neoliberalismo , mostrando um cachorro sendo atingido no rosto por um Frisbee e depois mostrando sua coleção de camisas de banda, mostrando seu gosto por seu rock alternativo (Pantera, Jimmy Eat World, Lemonheads). Brief Inquiry inclui uma faixa falada detalhando um homem cuja internet “era sua amiga / você poderia dizer que era sua melhor amiga / eles brincavam um com os outro todos os dias / assistindo a vídeos de seres humanos fazendo todo tipo de coisa / fazendo sexo um com o outro.”

Quando a The 1975 surgiu, eles eram uma entidade quase totalmente anônima: a estética dos quatro primeiros EPs da banda, todos lançados em menos de um ano a partir de 2012, bem como o álbum de estréia de 2013, pareciam deliberadamente distantes do sexy hard sell. Mas logo descobriu que Healy era natural no Twitter.

Healy é propenso a reclamar sobre a maneira como a mídia social é como um vício em drogas, mas ele se orgulha de apontar que The 1975 foi cedo para o Instagram. Como uma celebridade da mídia social, Healy se envolve em confusões: em dezembro, o Maroon 5 postou um tweet para a The1975, acusando-os de plagiar a arte do single Me and You Together Song do Kara’s Flowers, a banda de Adam Levine no início de sua carreira. Para isso, Healy respondeu, “Eu não sei o que diabos é isso, mas eu amo aquela música sobre estar em uma cabine telefônica ou o que quer que seja.” Outro incidente amplamente ridicularizado ocorreu quando o COVID-19 entrou em marcha alta. Com o vírus dizimando a capacidade de muitos músicos de obter renda, Healy parecia zombar daqueles que buscavam fontes alternativas de receita. “Parem de pedir para as pessoas os apoiarem: não queremos seu EP nem seu zine agora Laura, vamos morrer”, ele postou antes de excluir e emitir um pedido de desculpas: “Me desculpe, estou entediado.”

Seu ego pode causar problemas. Durante a promoção de A Brief Inquiry, ele disse a Vulture: “Me dê um [álbum] melhor. Mostre-me outra grande banda que é incrível assim.” As pessoas nem sempre estão tão impressionadas com ele quanto ele. Após a apresentação de estréia da The 1975 no Saturday Night Live em 2016, quando Healy apareceu sem camisa e se contorceu pelo palco, o Village Voice apelidou a apresentação de “agradável, polarizante e dá vontade de socar minha TV”. Um usuário do Twitter chegou ao ponto de escrever: “Depois de assistir ao SNL, acho que nunca odiei uma pessoa mais do que o vocalista da The 1975″.

Healy diz que está aprendendo a levar tudo com calma. “À medida que você envelhece, você simplesmente não pode ser incomodado com essa merda. Você não precisa saber o que um cara aleatório pensa de você.”

Healy já tinha alguma familiaridade com a fama. Seus pais são as estrelas britânicas da TV: Tim Healy (Auf Wiedersehen, Pet) e Denise Welch (Waterloo Road). Depois que Healy e seus colegas de banda se formaram na Wilmslow High School, cujos alunos mais jovens incluem Harry Styles, sua banda foi rejeitada por várias grandes gravadoras. Seu empresário, Jamie Oborne, finalmente começou a autofinanciar seus projetos e formou a Dirty Hit Records para lançar a música deles. (The 1975 agora têm um acordo de distribuição nos EUA com a Interscope Records).

No começo, eles eram essencialmente uma banda emo, uma ramificação instantânea da obsessão adolescente de Healy e Daniel pelo rock e punk ruidosos. Healy descreve seu eu adolescente como “talvez um pouco pretensioso. Gostava muito de filosofia e o house music alemã de esquerda, e outras coisas muito estranhas.” Como tantos adolescentes inclinados às artes antes dele, Healy se apaixonou nos escritos de escritores como Kerouac e Burroughs, que notoriamente também romantizam o uso de drogas.

Mas, deixando a pretensão de lado, eles sempre souberam que estavam destinados a ser estrelas pop. Caso contrário, por que se preocupariam? “Sempre quisemos ser verdadeiramente subversivos”, diz Healy. “E fazer algo como quebrar a música pop, foder com o discurso mainstream da arte, isso é punk para mim. Ser uma banda grande mas que ninguém ouve é ótimo. É legal. Mas não é aspiracional; é um hobby.”

No momento em que gravaram I like it when you sleep, eles transformaram seu som em outré pop, com grooves de dance-rock elegantes, sintetizadores espalhados e linhas de baixo descoladas. Foi nessa época que Healy começou a usar drogas. “Eu adorava ouvir música barulhenta e depois ir até o leste de Londres e usar”, lembra ele. Ele precisava de algo para bloquear a mania de sua nova vida. “É tudo automedicação”, ele supõe. “Você não quer pensar por que não gosta do jeito que se sente, porque isso leva muito tempo e provavelmente é muito obscuro.”

Healy entrou em uma reabilitação em Barbados no final do ciclo de turnê do I like it when you sleep em novembro de 2017, após uma discussão retórica durante o jantar com seus colegas de banda, sob a influência dos benzodiazepínicos. Apesar dos pedidos para que ele parasse de usar, ele disse que pretendia continuar fumando heroína. No dia seguinte, “eu percebi que isso era besteira absoluta. Então desci as escadas e disse a George que deveria ir para a reabilitação”, disse ele à Billboard. Quando ele saiu de lá, em janeiro de 2018, voltou a trabalhar em A Brief Inquiry. A Pitchfork nomeou a inquietante peça central do álbum, Love It If You Made It, como a melhor faixa de 2018.

Ele insiste que o uso de drogas era uma coisa que sempre dizia “que iria pegar e largar”. Segundo a imprensa britânica, foram as festas que separaram seu relacionamento de quatro anos com a modelo Gabriella Brooks. Mas “não rompeu nenhum dos meus relacionamentos realmente sérios”, diz ele. “Qualquer relacionamento transitório que eu tinha simplesmente não existe mais. Tenho amigos e familiares muito, muito próximos e eles entendem. Eles vão entender quando não posso ir no Natal.” Mais recentemente, houve rumores de que ele está namorando FKA Twigs, que aparece na faixa do Notes, If You’re Too Shy (Let Me Know), embora quando perguntado sobre ela, Healy desvia: “Quando se trata desse tipo de partes íntimas da minha vida pessoal, provavelmente é melhor eu ficar quieto.”

Olhando para sua decisão de ficar limpo, Healy concluiu que foi um favor tanto para The 1975 quanto para ele: se ele continuasse drogado, “teria me tornado um clichê de verdade. E então todas as minhas piadas nas minhas músicas sobre ser um clichê não funcionariam.”

Em quarentena, Healy diz que está ouvindo o novo álbum e não pode deixar de sentir como se tivesse um novo significado. Muita coisa para refletir desde que postou no Twitter em 13 de março: “Eu não gosto de sair, então me traga tudo aqui”, pouco antes de ele deixar o mundo real para se isolar em estúdios.

“Obviamente, eu escrevi o álbum sem o conhecimento da [pandemia]”, diz ele. Mas, refletindo, houve uma sensação quase assustadora ao gravá-lo, ele acrescenta, como “o momento antes da chuva. Parecia que podíamos ver as vacas se escondendo ou algo assim. Parecia que aquele momento não duraria. Tinha que haver algum tipo de evento de massa ou mudança cultural.” Eles continuaram adiando as datas de lançamento, mexendo sem parar antes de finalmente anunciarem uma data, algumas semanas antes do vírus tomar conta do planeta – tudo levava a isso, ele percebe. Segundo George Daniel, o álbum “parece um abraço caloroso”.