Quando Matty Healy atende o telefone, ele está dirigindo pelo interior chuvoso da Inglaterra, em algum lugar entre Oxfordshire e Northamptonshire, passando por essas “coisas que parecem moinhos de vento”, não muito longe do estúdio onde o vocalista da The 1975 e seus colegas de banda passaram o último ano trabalhando em seu último álbum – o Notes On A Condicional Form, que será lançado em breve.

“Estou dirigindo só para poder sair de casa”, diz ele através do viva-voz com um forte sotaque inglês. Healy está ao volante de um Audi E-Tron prateado. Ele não é Prius do Larry David, mas uma escolha modesta de carro: elétrico, ecológico – definitivamente responsável. O tipo de veículo que você esperaria de alguém que apresentou um monólogo da ativista adolescente Greta Thunberg na faixa de abertura de seu novo álbum.

“Não é um carro legal”, diz ele. “Quero dizer, eu tenho dois carros legais, mas tento não dirigi-los muito porque são velhos e não quero fazer parte do problema. Estou super consciente de toda essa merda agora. Não quero ser um socialista de champanhe. Eu meio que não consigo evitar até certo ponto, então sempre tento me controlar.”

Healy é muitas coisas: inteligente, obsessivo – alguns até o chamariam de sonhador – mas uma coisa que realmente define a personalidade carismática e franca é sua autoconsciência. Sensível ao estado atual das coisas, especialmente quando se trata de mudanças climáticas, ele carrega o peso do mundo em suas letras, canalizando nossas ansiedades coletivas e a bagagem emocional de uma maneira estranhamente terapêutica.

“Na verdade, eu costumava dirigir muito”, continua Healy. “Eu costumava ser entregador de um restaurante de comida chinesa e escrevia músicas em CD’s e as colocava no carro.” Embora Healy tenha, sem dúvida, percorrido um longo caminho desde os dias de entregador, ele certamente não se esqueceu de onde veio. Você pode ouvir as primeiras influências dele brilhando alto e claro no novo álbum; tudo, desde o punk rock underground até a música experimental e textural, como Four Tet e Burial.

Em uma entrevista recente que ele fez com Zane Lowe na Beats 1, Healy falou sobre sua apreciação pelas primeiras bandas emo-hardcore do final dos anos 90 e início dos anos 2000; grupos crus, lo-fi e emotivos como Mohinder, Indian Summer e Moss Icon. Bandas que, na maioria das vezes, se tornaram relíquias esquecidas de um gênero mutante. A criação emo de Healy é exposta no recente single da The 1975, People, onde ele grita enfaticamente e exige que todos “acordemos” para as realidades de uma república (ou “banana”) em ruínas. A música é alta e poderosa, até um pouco punk, com sua postura política influenciada pelos ícones pós-hardcore suecos, Refused.

“Refused foi uma das bandas mais importantes da minha vida quando eu era mais jovem. Fazer música pesada e ter esse elemento angular e caprichoso que é meio groovy está muito presente em nosso vocabulário e coisas que extraímos. Nem sempre tenho uma ideia completa do que é a The 1975, mas faz sentido falar sobre essas influências porque isso faz parte do meu DNA”, diz Healy. “Quando você está fazendo música com o coração, não pensa muito nisso, é mais sobre o que você tem de bagagem.”

Não se engane, embora Notes On a Conditional Form possa carregar um espírito emo ou do punk rock antigo, ainda é um álbum pop moderno, construído de tal maneira que respira uma singularidade relacionável, tornando-o audível e radio-friendly. Uma acessibilidade que proporcionou à banda uma enorme fã-base internacional que, até essa pandemia começar, os viu esgotando estádios de Indiana a Istambul.

Embora tenha sido escrito pré-pandemia, o NOACF não poderia ser mais relevante e poderoso com suas mensagens de imediatismo e pede ação em um mundo que, segundo Healy, está desmoronando de dentro para fora. “Sinto que é bastante profético na maneira como se inclina para esse momento. Tenho muito orgulho de lançar um disco que apresenta Greta, para que em 10 anos possamos olhar para essa pandemia ou o que quer que venha a acontecer e saber que esse álbum foi lançado nesse momento”, diz ele. “A pergunta que estou fazendo neste álbum é a mesma que estou fazendo no último álbum, mas aquele era mais sobre internet e comunicação. Este disco é a forma mais ampla de eu dizer: ‘certamente o centrismo não vai aguentar o que está acontecendo, certo?’ Tudo está ficando louco agora.

No álbum anterior da banda, A Brief Inquiry Into Online Relationships (2018), Healy estava criticando nossas várias formas de comunicação digital enquanto solicita uma solução e procura por conexões além da tela, enquanto no NOACF ele está sugerindo que algo tem que acontecer. “Talvez precise piorar antes de melhorar”, lamenta. A questão então é o que fazemos até que o dique proverbial rompa?

Ao colocar Greta Thunberg na frente e no centro da faixa de abertura do álbum, Healy e seus colegas de banda não estão apenas reconhecendo seu lugar na luta contra as mudanças climáticas, mas também estão reconciliando seu lugar de privilégio em uma indústria musical dominada por homens, usando seus poderes da cultura pop para o bem na tentativa de normalizar o diálogo sobre as mudanças sociais necessárias. “Eu queria que a voz de Greta tivesse um lugar formal na cultura pop. Há um milhão de tweets e recomendações on-line, mas isso é bastante transitório. Uma música vive para sempre, foi gravada em um disco, isso não é transitório. Em 1000 anos, não haverá pessoas encontrando um tweet sobre Greta Thunberg. Entende o que eu quero dizer? Eles não vão encontrar um tweet entre os escombros.

Enquanto esperamos pacientemente por uma vacina ou para a queda do centrismo – o que ocorrer primeiro – Healy está usando seu tempo de inatividade para continuar trabalhando na criação de música e tentando permanecer positivo enquanto aposta como pode ser o nosso novo normal. “Ninguém sabe. Será um mundo totalmente novo. Porque quando voltarmos ao que considerávamos normal, isso será normal. Vai ser um engarrafamento inteiro de adaptação nos próximos cinco anos”, diz ele. “Tenho sorte de poder continuar fazendo o que faço. Quero dizer, não posso fazer shows, mas posso fazer música e essa é uma verdadeira posição de privilégio para se estar agora, então estou apenas tentando não tomar isso como garantido.”

Notes On a Conditional Form estará disponível em 22 de maio pela Dirty Hit e pela Polydor Records.

The 1975 está prestes a completar uma campanha de dois álbuns com o lançamento de ‘Notes On a Conditional Form’, mas as coisas não foram exatamente conforme os planos. Enquanto o capítulo mais caótico da carreira deles se encerra meio a uma emergência global, Music Week se encontra com Matthew Healy para descobrir o que vem a seguir e para desenrolar a história de um álbum que nos desafia quanto tempo conseguimos continuar…

O quarto álbum da The 1975 está prestes a sair e Matthew Healy está a milhares de quilômetros de onde ele deveria estar. Healy deveria estar na América, se preparando para uma turnê nos EUA. Em vez disso, o vocalista da The 1975 está sentado em seu carro em algum lugar de Northamptonshire, onde as atrações locais incluem um lugar que contrata tanques de guerra e o estúdio onde a banda dele passou uma quantidade considerável de tempo durante os últimos dois anos. Com vôos suspensos e a turnê adiada, ele ainda vai ficar lá por um tempinho.

Estamos prestes a começar uma inesperada segunda parte da nossa entrevista, após passarmos o dia juntos em Londres em Março. Um Healy cansado chega com um abacate e uma colher, antes de vestir uma jaqueta de couro para o nosso ensaio de fotos e depois sentar para conversar – através de seu habitual turbilhão de energia positiva e expressões faciais enrrugadas – acompanhados de chá, queijo e biscoitos. Após isso, ele se encontrou com Brian Eno, e “trocou de ideias” sobre um possível trabalho. Mas tudo isso parece estar a um mundo de distância ag0ra.

“Tem sido estranho pra caralho, né? Para todos nós,” ele começa, “Eu tinha três semanas até a turnê americana, então fui para o interior e a partir daí tudo começou.”

Quatro semanas em quarentena enquanto o coronavírus continua a se espalhar, Healy está no chuvoso interior preparando para o lançamento de ‘Notes On a Conditional Form’, a segunda parte da campanha de dois álbuns que começou com o líder dos charts, vencedor do BRIT’s ‘A Brief Inquiry Into Online Relationships’ (186.182 cópias) em Novembro de 2018. ‘Notes…’ foi originalmente planejado para sair na primavera de 2019, mas dizer que as coisas mudaram desde que Healy embrionou a ideia com seu manager e chefe de gravadora Jamie Oborne, é um entendimento enorme. Após vários adiamentos, durante quase dois anos gravando em turnê – de todos os lugares desde o ônibus até o estúdio Abbey Road – eles conseguiram se fixar em 22 de Maio, até que uma emergência global se instaurou.

“Primeiramente, eu me simpatizo de verdade com qualquer um incapacitado,” Healy diz. “Seja pelo vírus ou por não serem privilegiados como eu pela minha capacidade de trabalhar… Espera aí, minha bota abriu.”

Depois de se abaixar para fechá-la, ele continua.

“Estive me ajustando e passando o tempo pensando em qual é a minha parte nisso, todos estamos pensando em como fazer nossa parte. Temos um novo mundo para se adaptar.”

Devido a rota de turnê que os levaram à Ásia no começo do ano, The 1975 experienciou o frenesi que em breve chegaria ao Reino Unido.

“Voamos via Hong Kong,” diz Healy. “O que soa assustador é que foi em um momento em que todos os canais de TV do mundo noticiavam esse vírus emergente, só havia gráficos vermelhos nos noticiários, como o começo de um filme. Daí começamos o isolamento por causa disso.”

A família e os amigos do cantor não estão afetados pelo vírus até o momento, e sua obsessão pela tecnologia significa que ele está mais experiente com plataformas como Zoom, mas Healy está claramente abatido pelo que está acontecendo. Ele pode estar trabalhando em músicas inéditas da última encarnação da The 1975, Drive Like I Do, e fazendo bolo de chocolate para o baterista George Daniel, seu parceiro de isolamento, mas, como muitos de nós ele se preocupa cada dia mais, passando o tempo extra dando nós em seus pensamentos.

“Tempos como esse te fragilizam, você percebe quem você é isso pode ser feio,” ele diz, como se estivesse com um zumbido cerebral, “Tive a distração de uma grande carreira onde eu trabalhava o tempo todo. E percebi que escondia atrás das coisas às vezes. Estou fazendo as pazes com a vida adulta e o que isso significa.”

Um período de introspecção forçada parece apropriado para The 1975. Bastam sete minutos para Healy dizer, “Eu só quero ser um cara normal, em casa”. Mas três minutos depois, ele está falando sobre música nova. Aqui está o contrate que define a The 1975. Ele não consegue parar.

Junto com Healy e o baterista/produtor George Daniel, o guitarrista Adam Hann e o baixista Ross MacDonald estiveram trabalhando sem descanso por quase três anos fazendo a campanha de dois álbuns se tornar real. Isso os esticou ao ponto de ruptura, sendo que no caminho até o ‘Notes…’, rumores de algum tipo de hiato surgiram entre os fãs. Mas nós chegaremos lá.

“Quando ‘A Brief…’ saiu, a reação das pessoas nos atingiu muito,” Healy diz, solenemente. “Então tínhamos esse disco novo como nosso lugar seguro. Poderíamos tratar ele como a continuação de um grande trabalho, ou apenas o nosso lugar seguro, então tivemos dificuldade em deixar ele ir às vezes. Quando concordamos em fazer dois álbuns, a única coisa que não levamos em consideração foi a vida, a merda que iria acontecer.”

Até um olhar superficial pela linha do tempo da The 1975 por esse período é exaustivo. Coloque na conta as questões pessoais – Healy, cuja “longa e difícil” recuperação das drogas continua, diz que todos os meninos tiveram problemas com relacionamentos – e uma sensação de caos se intensifica.

Junto aos BRIT’s, Ivor Novellos e headlines de festivais, Healy – bem familiar com dramas do Twitter – aparentemente se posicionou sobre todos os debates permanentes, falando sobre racismo, homofobia, sexismo, entre outros. Ele chamou atenção para a misoginia ao receber o BRIT Awards em 2019; beijou um garoto na platéia de seu show em Dubai, onde a homossexualidade é ilegal; e tweetou que a The 1975 só irá participar de festivais 50% femininos. Junto com Charli XCX, Clairo, Beabadoobee entre outros, a lineup do festival da banda no Finsbury Park neste verão prova isso, mesmo que provavelmente tenha de ser adiado.

Este show foi programado para ser sustentável. e a mudança climática é grande parte do ativismo de Healy. ‘Notes…’ teve seu primeiro single sendo a habitual faixa homônima da banda, mas dessa vez, os vocais são da adolescente ambientalista Greta Thunberg, clamando por revolução.

O amplo álbum de 22 faixas absorve tudo isso e mais, desde histórias íntimas do dia-a-dia de Healy, até uma enorme experiência auditiva sobre a sustentabilidade da raça humana. Há um interlúdio chamado ‘Streaming’, que é certamente a coisa “mais Matty Healy” que ele já fez. Se essa faixa soar grandiosa e aberta, então é verdade.

“Meus álbuns nunca são cheios de opiniões, então não estou preocupado com eles ficarem datados, também não me preocupo em parecer uma “palestrinha”, porque não é,” ele diz. “A questão nesse álbum é, o centro vai aguentar? O centro irá aguentar toda essa merda acontecendo e esse tanto de informações disponíveis? A única coisa que faria esse álbum ser menos relevante, seria um acontecimento global positivo. Se algo do tamanho do coronavírus, só que positivo, acontecesse, esse álbum pareceria assustado ou negativo. Isso parece junto, eu acho.”

Healy tem um histórico com a palavra “profético”, mas ‘Notes…’ se revela como um disco explicitamente construído para esses tempos, uma procura, um estudo intenso da falibilidade do mundo que criamos.

Uma semana após nossa conversa, ‘If You’re Too Shy (Let Me Know)’, o último dos sete singles, foi lançado. É maior momento pop do disco e, graças as apresentações ao vivo na turnê, os fãs quase não puderam esperar. Isolado em Londres – onde ele aproveita a liberdade de não precisar calçar sapatos ou meias – Jamie Oborne está refletindo o clamor.

“A quantidade de conversa sobre a banda no mundo digital e nas redes sociais é ensurdecedor,” diz o manager. “Tudo cresceu em alcance e intensidade. Tem sido uma campanha bem diferente. Na questão de mercado, realmente quis evitar o que é visto e aceito como convencional e focar em construir processos digitais em vez de se tornar outra banda dependente de um mercado físico moribundo.”

Com os ouvintes mensais da The 1975 no Spotify passando de 7 milhões no lançamento de ‘A Brief…’ para 1o milhões agora, Oborne diz que a determinação de sua equipe para refletir a “modernidade” da música com uma campanha que faça jus à ela. “No começo, concordamos que as pessoas não entenderiam a trajetória completa até o lançamento do ‘Notes…’. Agora chegamos a este ponto,” ele ri. “Foi baseado em lançar música que as pessoas queiram ouvir constantemente e ter fé no fato de que se você lança qualidade e posicionamentos culturalmente relevantes, irá atingir um público,” ele diz. “Houve elementos convencionais como vídeos ou singles que levamos às rádios ou playlists, mas a maior questão é que nosso público está aumentando e eles não perdem o apetite. E nós nem tivemos a atração principal ainda.”

Enquanto ele lamenta a perda de “diferentes meios” de divulgação causadas pelo banimento das viagens, Oborne diz que a equipe da Dirty Hit está construindo uma mini-campanha na quarentena, com “grandes parcerias” a serem reveladas. Ele ainda está cambaleando com as idas e vindas até o momento, mas está relutante em chamar de atraso, é mais uma progressão. O manager também expressa sua gratidão pela banda por “não dizer que estávamos loucos” quando ele e Healy quiseram “fazer dois álbuns sem descanso pois é isso que uma banda verdadeiramente moderna faria”. Ele também deixa claro seu desejo de proteger Healy de “ódio, tanto ódio” que há online devido a sua natureza faladora.

Ouvir o ‘Notes…’ e sua quantidade pura de composições, produções e conteúdos (para usar uma palavra gritantemente apropriada), parece mais do que fantasioso pensar que originalmente ele era pra sair apenas seis meses após seu antecessor. “Eu sei,” Oborne sorri. “Essa é a questão! Com todo o nosso ânimo e planejamento, não percebemos… Poderíamos ter feito, mas a vida é essa. O rio cursa o caminho que tem que cursar.”

O que quer que você pense sobre The 1975, o esforço deles para dobrar os limites do que uma banda pode ser e fazer é inegável. Eles passaram por todos os aspectos da cultura pop. Após anunciarem seu plano de dois álbuns, Foals também fez o mesmo, e muitos outros farão. “Sim, e eles completaram antes da gente,” lembra Oborne. “A diferença é que Foals fizeram material suficiente para dois álbuns, olhando na linha do tempo, enquanto Matthew disse que não estava fazendo um álbum duplo, ele estava fazendo dois álbuns e eles teriam formas diferentes.” E foi exatamente isso que aconteceu. Healy continuou vivendo sua vida, fazendo o álbum como queria. A história de como a The 1975 fez isso, as ferramentas necessárias, fazem Healy puxar bastante fôlego para contar…

 

Music Week: Então, o álbum está pronto, qual o motivo do adiamento?

Matthew Healy: Foi o momento que o considerei finalizado. Sempre o descrevi como uma expressão do tempo real, então viria quando estivesse pronto. Nunca apressaria um disco, isso é o medo quando se faz uma campanha de dois álbuns. Foi uma verdadeira reflexão do que eu gosto e uma reflexão constante do zeitgeist: a constante mudança. Eu nunca tive uma data real para ele, mas obviamente existe a indústria da música, as pessoas precisam de datas. Não é mais eu lançando músicas do meu quarto. Muitas datas sólidas vieram de falas minhas tipo “Sim, sim, claro.” Mas quando você sabe, você sabe.

MW: Está orgulhoso dele?

Matty: Quando chega a esse ponto, não há nada que posso fazer. Espero que as pessoas gostem mas o mais importante para mim é que estou orgulhoso dele. Esse disco é muito diferente dos anteriores, não tem muito destino, é longo mas não é entediante.  É bem sucinto, mas ainda sim bagunçado. A forma longa é muito importante para o nosso disco, não somos profissionais em manter a atenção das pessoas por três minutos. Vivemos em um mundo com um mercado voltado massivamente para isso. Não quero dizer que não há músicas pop ou para a rádio [no álbum], mas eu tive dificuldade em escolher quais lançar como single.

MW: Como lidou com a aclamação do ‘A Brief…’?

Matty: Pareceu certo, né? Mais sei lá, sempre penso no momento em que acaba e eu posso descansar a noite e assistir Netflix. Não tive nenhum tempo livre desde que isso tudo começou. Ou estou em uma agenda de turnê esgotante ou me isolando para maximizar meu potencial criativo. Não descanso de verdade há seis ou sete anos. Nem sei se consigo. Só continuo fazendo álbuns. Já estamos muito animados para fazer música nova.

MW: Como foi fazer esse disco?

Matty: Me lembro de escrever ‘The Birthday Party’ durante dois ou três dias enquanto decidíamos sobre o palco da turnê do ‘A Brief…’. É daí que vem essa energia da combinação dos dois discos. Muito do ‘Notes…’ nasceu do magnetismo ou da oposição, duas ideias batendo de frente. Isso pode criar ansiedade. Então aceitamos isso e continuamos. Foi muito estranho ir na casa do George durante a noite e trabalhar no ‘Notes…’ enquanto passamos o dia todo pensando nos shows. Mas é sobre isso que é esse período. Você tem que enterrar sua cabeça na areia, tentar não se importar e fazer música que não seja contaminada por medo ou autoconsciência.

MW: O álbum explora muitos sons diferentes, como eles tomaram forma?

Matty: Conseguimos um ônibus-estúdio e apenas removemos o nosso ego nerd junto com toda a parafernália que não precisávamos e apenas fizemos um disco na estrada. Abraçamos nosso sonho de infância de fazer turnê na América, dirigindo pelo Nebraska fazendo música, esse tipo de coisa. É daí que surgiu People. Um atolamento, um pouco bêbados, no meio do Texas, tentando ser os mais nervosos possíveis. Esse álbum soa como todos esses lugares diferentes, é um ode a cultura noturna do Reino Unido e ao emo do centro-oeste americano, com bastante música ambiente dançante. Phoebe Bridgers está em quatro músicas, meu pai faz participação e o rapper Cutty Ranks também.

MW: Como você chega às letras?

Matty: Não há uma ideia monolítica da 1975, mas o modo como nos comunicamos sempre parece ser o tema. Tive o último álbum para falar de drogas, constantemente relembrar as pessoas de que eu era um drogado parece um pouco autoindulgência. É importante não deixar para trás como tento ser e como traço quem sou, ao me certificar que deixei para trás as merdas. É tipo comédia, os melhores comediantes expressam suas ideias com poucas palavras, isso é algo que eu almejo alcançar.

MW: Como se sente sobre não fazer a turnê como planejada?

Matty: Não vou mais fazer nossos shows [do jeito que fazemos] de novo. Não consigo. Antes do coronavírus, eu sentia que os shows estavam indo por um lado errado do progresso, pelo menos o nosso era um centro de informações e estava se tornando neutro em carbono. Agora, o problema com o mundo é que essa situação requer sacrifício, sacrifício do conforto. Não posso dizer: “Ok, vou continuar fazendo um show enorme que se todos fizessem não seria sustentável”, então é difícil. Com o Finsbury Park, eu não iria querer que acontecesse [nessa situação]. Vamos ver. Me deixa triste, mas provavelmente triste como a barbearia de Tottenham que não pode abrir. Não estou incomodado com o que estou perdendo; Prefiro falar sobre o que posso fazer para melhorar as coisas. Não é tão triste quanto o que está acontecendo no mundo.

MW: Você não está em uma posição para influenciar o mundo além da música?

Matty: Você sempre vai receber muita merda no Twitter. Qualquer coisa que envolva dar sua verdadeira opinião, te expõe para os direitistas. O show no Finsbury Park é um evento verde. É um privilégio enorme fazer um show assim, então se você pode fazer isso, faça. Você tem que dar o exemplo, fazer o que é certo. Vai lhe custar um pouco mais, mas você vai morrer no final das contas. Penso nisso tudo de forma bem depressiva. Greta Thunberg passou um pouco de esperança para mim com o desejo único dela de alcançar seus objetivos. Não estou revelando nada com meu ativisto. Queria muito não ter nada para protestar. Mas é um trabalho que deve ser feito e não há mais ninguém para fazê-lo. Não quero dizer que estrelas pop podem salvar o mundo, mas as pessoas que estão fazendo esses eventos para os jovens são pessoas como eu, é aqui que o trabalho precisa ser feito. Eu facilmente usaria energia orgânica para ligar a porra das luzes.

MW: O seu tweet sobre festivais com a lineup balanceada entre homens e mulheres teve repercussões?

Matty: Imagino que muita gente me chamou de idiota no Twitter. Meu agente estava se cagando! Pessoas como eu tem que dar o exemplo. Sobre as mulheres na música, não é apenas sobre festivais, é sobre o problema maior que elas enfrentam. Se estou em uma banda famosa, e eu potencialmente posso influenciar em algo que faça as mulheres serem mais, não sei qual palavra usar, inclusas, mais certas de suas posições, isso requer que pessoas como eu façam o que deve ser feito. Só quero ajudar, sinto que sou muito sortudo e um pouco sem noção então só quero ajudar. Esses debates ainda não foram feitos e eu estou pronto para ouvir e não entender até que eu realmente entenda, e tentar aprender das mulheres ao invés de agir na defensiva.

MW: O que fará agora que o disco está pronto?

Matty: Esse não é necessariamente nosso último disco, não acho que seja o último, mas é o fim de uma era, o que quer que venha a seguir será bem diferente e em tempos diferentes. Posso apostar que apareceremos com um novo álbum e ele será foda. Acho que será bem violento. Apesar do ‘Notes…’ ser bem amplo, as últimas composições foram tipo ‘People’. Ainda estamos nesse ambiente de agitação e ansiedade, somos voyeurs da violência em um nível geopolítico e somos uma banda, então sentimos que é nosso dever falar sobre isso. E agora estamos em uma pandemia, então se não fizermos um música, que porra vamos fazer?

MW: Então, esse é um momento criativo para você?

Matty: Estou na oportunidade de fazer música, no imediatismo. Estamos em um ponto de mudança geracional. Há essa ideia de que “a arte é inútil pois as pessoas estão mortas”. É a realidade bruta da experiência humana que às vezes faz a arte parecer inútil. Estive re-escrevendo coisas do Drive Like I Do e trabalhando com sonoridades experimentais e sons artísticos. Após o álbum, tenho que dar uma utilidade a isso.

MW: Por último, o que acontece com a The 1975 agora?

Matty: Quero que as pessoas digam “muito bem, vocês são incríveis, amamos, podem descansar!” Não é isso que todos querem? Com a profundidade que investi nisso, eu descreveria como um álbum indulgente, então isso significa que será difícil para algumas pessoas. Eu amo, é uma ótima expressão da 1975, talvez a melhor. Temos ideias para os próximos anos. Nem sei se esse em algum momento pôde ser meu último álbum, mas não é. Então não sei o que está acontecendo, mas é animador para caralho. Não há nada concreto, mas já falei bastante sobre a próxima ideia não ser expressada como The 1975, até agora parece que não vai ser. Essa é a única coisa que irei dizer. Eu falo merda toda hora, cara. A civilização está correndo contra o tempo…