Nesse momento, a The 1975 deveria estar em uma grande turnê nos EUA. Em vez disso, Matty Healy está fora em outro país com um cachorro novo e mais tempo para si do que jamais teve nos últimos dois anos. Não é fácil para ele, mas ele ainda sabe o quão privilegiado é, pois sempre pode continuar sendo criativo. “Fazer música, você pode fazer na sua cabeça, quando precisar, sabe?”, ele diz no início da nossa conversa. Então, sem mais delongas, aqui está.

 

Gabi Rudolph, Entrevistadora (E): Você sabe qual foi a última coisa que fiz antes de toda essa situação de isolamento acontecer? Eu visitei um amigo em Manchester e fomos juntos ao seu show.

Matty Healy (M): Sério? Merda, cara…

E: E sabe de uma coisa? Foi um momento tão maravilhoso que, eu disse: se essa for minha última noite fora de casa por um longo tempo, eu ficaria perfeitamente bem com isso. Isso não é estranho?

M: Isso é estranho, não é? É bom que você tenha tido esse momento de apreciação. Acho que a maioria de nós aprecia qualquer coisa quando isso acontece e então você está tipo, uau… todos estamos refazendo e tentando descobrir qual foi a última coisa que fizemos ou a última vez que vimos essa pessoa. Então, suponho que você tenha sorte nesse aspecto, sabia que era uma experiência positiva. Fazer um show todas as noites se tornou uma espécie de normalidade para mim. Foi uma pausa agradável inicialmente, mas agora parece estranho não ter nada programado. Isso é estranho.

E: Quanto tempo você acha que poderia lidar com a situação de agora? Quanto tempo você acha que vai se sentir bem, sem subir ao palco todas as noites?

M: (respira)… Alguns anos, talvez? Eu não sei. Eu farei o que for preciso. Quero dizer, eu preciso me sentir confortável com isso também, não é apenas se é permitido, é se é de bom gosto. Não posso priorizar meu desejo de estar no palco no momento. A prioridade global não é essa… comecei a pensar, não posso estar infeliz com as coisas. Estou falando sobre isso no disco, sobre como precisamos mudar alguma coisa, ou algo vai mudar para nós. E parece que algo está avançando. Fingir que podemos voltar ao modo como as coisas eram, isso seria um pouco tolo. É mais sobre como focar em avançar e mudar as coisas. O que penso no momento é que, em vez de ficar chateado, me sinto meio responsável. Mesmo com alguém como você, que é uma mulher adulta e inteligente no campo, ainda assim, você tem um relacionamento ascendente com as pessoas do setor. Então você me faz essa pergunta, o que devo fazer sobre essa situação. Quero fazer essa pergunta, mas não tenho ninguém para fazer. Eu não tenho um relacionamento ascendente com ninguém, eu estou em uma espécie de liga premium de bandas e artistas agora. Não vai mudar por si só, a questão da crise climática e outras coisas. Antes dessa situação, o que todo mundo estava fazendo era continuar fazendo exatamente o que faz, mas apenas disfarçando o suficiente para tornar socialmente aceitável. Mas considerando o agora, precisamos de uma reinvenção completa. Então, ao invés de ficar sentado e querendo [fazer shows], tento pensar em como reinventar a música ao vivo. Comecei a ter conversas sobre isso com as pessoas. Como podemos fazer as coisas, reinventar a maneira como pensamos sobre as coisas.

E: Eu já sentia isso logo no começo, quando toda essa situação começou. Mesmo quando ainda estávamos conversando algumas semanas antes. Eu acho que isso vai mudar a perspectiva de como encaramos as coisas muito profundamente.

M: Sim, agora entraremos em um estado de engarrafamento de alteração. Quando voltarmos ao normal, o agora será o normal e, quando aquilo mudar, o amanhã será o normal. Estaremos ocupados nos adaptando a um novo tipo de normal por um longo tempo.

E: Mas, enquanto isso, você lançará um álbum! Está finalmente pronto, e trará muita alegria para as pessoas.

M: Sim, é por isso que estou fazendo isso, é por isso que estou confortável com isso. Sinto-me à vontade com expressões longas que não interessam a si mesmas, um álbum ou um podcast com alguém. É uma expressão que me interessa, porque essas coisas podem confortar as pessoas e subjetivamente são arte. Apenas fazer as coisas para me sentir bem não é o que me interessa.

E: Então, pensei em algumas coisas quando ouvi o álbum. O que realmente me impressiona é que são 22 músicas, mas eu não gostaria de perder nenhuma delas. É super diversificado, mas, novamente, faz muito sentido como um todo. E sério, eu não conheço nenhuma outra banda ou artista no momento que faria um álbum assim. Mas você sabe de uma coisa? Eu acho que Prince teria se divertido com ele. Esse foi meu primeiro pensamento.

M: (risos) Muito obrigado, esse é um elogio adorável. Eu acho que é o nosso melhor trabalho, se eu pensar nisso como uma pintura. A coisa toda faz sentido, mas é definitivamente composta de hiperconcentração em áreas realmente específicas. É como o seu próprio mundo, mas vivemos muito no nosso próprio mundo e eu meio que vivo no meu próprio mundo, na minha cabeça. Estou tentando fazer isso sonoramente. Essas eram as músicas que queríamos lançar, não pensamos se seriam muitas. Quero dizer, todos os nossos álbuns sempre foram bastante estranhos em sua forma. Sempre fui um grande fã da capacidade de Prince de fazer qualquer coisa e ainda me sinto como Prince. Mas esse disco… esse é o meu disco mais “eu”. Eu gosto da ideia de pessoas tentando copiar esse tipo de álbum. Eu acho que é um disco original. Então, obrigado, eu realmente aprecio isso. Eu gosto de pensar que é possivelmente o nosso melhor disco. Eu não sei. Mas se você não acha isso, então qual o sentido?

E: Eu o ouvi algumas vezes como um todo, e depois prestei atenção em quais músicas eu continuava voltando. Eu realmente gosto de músicas eletrônicas. Having No Head é uma das minhas favoritas.

M: Oh, George ficará feliz com isso. Sim, eu também! Eu acho que é possivelmente a minha favorita no disco. Quero dizer, eu não escrevi essa. É por isso que talvez seja a minha favorita (risos). Esse é o grande momento do George. Então, eu concordo, continuo voltando nela também. Eu gosto do Shiny Collarbone também. Mas essas são do George.

E: Para mim, você parece criativamente mais livre do que nunca neste álbum. E eu queria saber se isso também é porque você pode estar colocando cada vez mais espaço entre você e o sujeito do vício? Você realmente pode me dizer se estou errada aqui ou se estou cavando fundo demais, mas sinto ou espero… que isso provavelmente sempre fará parte de você, mas não é mais um assunto tão urgente. Isso te deixa mais livre como artista?

M: Um pouco, eu acho. Acho que crescemos um pouco. Melhoramos o que fazemos e meio que entendemos as melhores partes do que fazemos e as partes mais verdadeiras do que fazemos. Não é remotamente pensado. Não estamos tentando provar nada a ninguém. Eu acho que é uma afirmação real e genuína, e acho que as pessoas acreditam em coisas reais. Mas não sei se é sobre onde estou. Eu acho que… A Brief Inquiry foi bastante intenso. Esse disco foi nosso antídoto lidando com aquilo e não tendo que enfrentá-lo mais de frente.

E: É um pouco mais divertido, na minha opinião.

M: Tem muito coração. E não tem medo de ser brincalhão. Não tem medo de ser agressivo. Não tem medo de ser íntimo e terno, quase ingênuo. Isso não importa. Não tem ego. Eu não falo sobre o meu ego. Desconstruo um pouco meu ego. Não é um disco de interesse próprio. É como uma vida real, expressão em tempo real.

E: Falando sobre ego, devo dizer que admiro realmente como você consegue permanecer tão aberto e real, tanto como artista quanto como pessoa. Eu vejo você tirando zoando as pessoas na internet o tempo todo (Matty ri). E então me pergunto: como diabos as pessoas podem ser ofendidas por alguém discursando sobre os direitos das mulheres, por exemplo?

M: A internet meio que disse a todos que o mundo é um fórum e sua opinião é a coisa mais importante. E a oposição a outra opinião é o caminho para obter atenção. Há muita besteira por aí, as pessoas literalmente desconstruindo narrativas para que sejam virtuosas, nervosas, inteligentes ou vitimizadas. As pessoas apenas alteram as informações para parecerem mais interessantes na internet.

E: Mas você sempre foi assim? Tão consciente do que está acontecendo ao seu redor e disposto a lutar pelo que é importante para você? Olhando para mim, acho que eu era muito mais egocêntrica quando tinha a sua idade.

M: Eu acho que quando há tantas pessoas olhando para você, o interesse pessoal e fazer as coisas só por diversão, não durou muito tempo para mim. Todos os artistas que realmente me influenciaram meio que documentaram seu tempo. Eu sei o que é certo, e eu não posso ficar parado e… eu não sei, talvez sempre tenha sido assim, não pensei nisso. Sou melhor em desafiar idéias no mundo inteiro do que em mim mesmo. Eu ainda tenho muito trabalho a fazr nessa questão. A política começa em casa. E acho que defendo todo esse tipo de idéia. Mas acho que preciso me concentrar um pouco mais no meu mundo.

E: Você acabou de começar a fazer uma série de podcasts, onde conversa com seus heróis musicais, como Stevie Nicks, Brian Eno e Conor Oberst. Você teria feito isso, se não fosse a situação atual?

M: Não, acho que não teria feito. Eu fiz isso para a revista The Face. A razão pela qual funcionou tão bem é que o editor de música de The Face é um dos meus melhores e mais antigos amigos, de mais de 20 anos atrás. Costumávamos sair quando tínhamos 15, 16 anos. Então agora ele é editor de música, e estávamos conversando sobre o que seria legal fazer. Então, eu tinha uma liberdade criativa, ele disse que eu poderia fazer o que quisesse. Eu disse, acho que o mais legal seria algo longo, como uma série de conversas ou algo assim. Então decidimos sediar as primeiras no The Face e depois continuar fazendo. Estou entrando em contato com algumas pessoas no momento e ver se elas topam. Noventa por cento das pessoas que perguntei até agora disseram que querem participar. Isso é legal.

E: Deve ter sido uma mudança de perspectiva tão interessante para você. Quando normalmente você é quem responde perguntas o tempo todo. E ouvir o quanto alguém como Stevie Nicks te admira!

M: Sim, foi incrível. Você nunca consegue refletir sobre como as pessoas pensam sobre sua música. E nessas conversas a dinâmica era muito sobre eu estava admirar essas pessoas. Brian (Eno) e Stevie (Nicks) tiveram que me parar. Eles também queriam dizer algo sobre a minha… sobre a música da nossa banda. Essas conversas… elas não me validam, mas me fizeram perceber que faço a diferença. Fazemos a diferença na música. Nós definitivamente fazemos. Temos um impacto. E eu estou meio orgulhoso disso.