O que torna algo um clássico? Sua importância, sua inventividade ou popularidade? Qual característica é aquela específica que alguém em algum lugar com algum poder de escolha define como clássico? Pode-se nascer clássico, ou sua atemporalidade o define? São muitas perguntas e incertezas.

É certo que algumas podem ser respondidas pelo embasamento acadêmico. A crítica, mais precisamente musical, é tão ampla quanto qualquer escolha artística que vá ser julgada, é um trabalho minucioso, requer estudo, tato, dom. Colocar opiniões públicas – quase sempre em massa, diga-se de passagem – não é fácil. De qualquer modo, é sempre pessoal, e muitas vezes vem mais em forma de “eu penso que” do que como uma brecha para o que não foi absorvido. O superficial dita a crítica? Bom, esta é outra discussão. A questão é que opiniões musicais, apesar de amplas, são conduzidas por um caminho onde a crítica especializada define o rumo da discussão. A gangorra sempre tomba para o bom, ou para o ruim, ou então se equilibra no mediano. Mas em casos raros, os dois pesos tentam se fincar na areia, disputando força e quantidade, e resultando em um grande e inquieta “opinião” daqueles que se guiam por resultados prontos.

Nestas excepcionalidades, portanto, o 8 ou 80 não dizem nada numericamente. O que era parâmetro, se torna estatística, e a discussão se amplia cada vez mais, até esfriar sem um resultado padrão. Porém, é fascinante tudo aquilo que polariza o que uma vez concordava em – quase – tudo. Com certeza é inquietante ler “obra prima” seguido por “bagunça sem precedentes”, ou ver uma nota máxima sendo atribuída ao mesmo tópico que recebeu uma mínima, não é corriqueiro, e há algo mágico e único sobre as obras que provocam este fenômeno.

Muito mudou desde Junho de 2018. “Music For Cars será uma era em que lançaremos uma coleção de coisas, e ela começa com dois álbuns”, disse Matty Healy em uma rádio naquela época. Nascia ali o Notes On a Conditional Form, mesmo que apenas em ideia. E desde então ele foi levado pela banda como uma garantia de que “há algo guardado aqui para depois”, enquanto eles viajavam o mundo, se apresentando em arenas, se envolvendo em polêmicas, levantando bandeiras e aproveitando todo o respeito que se colhe após um álbum universalmente aclamado – e previamente concebido. Porém, após todo trabalho bem recebido, há a ânsia pelo próximo, e o fantasma do Notes começava a assombrar. Com a ajuda de um ônibus-estúdio e outras regalias para balancear gravação e turnê, The 1975 não poupou esforços para finalizar um disco que, desde pensado pela primeira vez, foi envolto por altas expectativas.

Até a data de seu lançamento, o álbum era um grande ponto de interrogação. Desde ‘The 1975’, a intro repaginada lançada em em Julho do ano passado, sentia-se novos ares e uma incial ideia de mudança radical, em forma e conteúdo. Não é comum a nenhum músico atual escolher um spoken-word ambientalista como lead single, e muito menos o acompanhar de um anarco-punk furioso. A direção da banda, naquele momento, foi totalmente alterada. “Não há mais dúvidas em 2019 de que a The 1975 é uma banda de rock”, escreveu um crítico, será? E então veio ‘Frail State Of Mind’, o suave pop eletrônico sobre ansiedade social, e ali já era certo que Notes On a Conditional Form não poderia ser definido nem se quisesse.

O ponto mais interessante sobre o álbum, no entanto, foi que mesmo sendo prometido como único, ainda conseguiu chocar. Na verdade, todas as grandes bandas tem esse momento. Aquela obra completamente única, que divide opiniões, provoca debates, decepciona os fãs mais fechados e ao mesmo tempo atrai outros públicos. Matty Healy diz que ser subversivo, atualmente, é não entregar o esperado. Se esse era o seu plano, funcionou perfeitamente. Em longos 80 minutos, é muito fácil soar repetitivo, é uma linha tênue que faz o ouvinte mudar de música ou repetí-la. Mas tudo aqui – por mais desconexo que pareça – se completa, e há propósito perceptível em cada uma das 22 faixas.

Passando por pitadas country, shoegaze, lo-fi, acústica e construído com base orquestral e fortíssima carga do EDM, NOACF não é fácil de se digerir de primeira. Porém inegavelmente, traz The 1975 em seu estado mais criativo, é o ápice experimental da banda, um trabalho minucioso em detalhes e largado em coesão, e isso acaba funcionando como mágica. É possível observar conexões com músicas antigas, detalhes bem posicionados, transições e outros grãos de areia que vão formando uma paisagem enorme, onde cada vista tem sua própria importância e beleza, sendo necessárias análises particulares.

Finalmente, Notes On a Conditional Form não falha em tentar demais atingir o que prometeu, até porque o disco não prometeu ser nada além de o encerramento de uma era. E isso ele faz muito bem, em toda a sua majestade, com suas surpresas, emoções e principalmente: a declaração definitiva de que a The 1975 continua não tendo – e não terá por bastante tempo – nenhum tipo de limite criativo. E isso sem dúvidas caracteriza os clássicos.

‘Notes On a Conditional Form’, quarto álbum de estúdio do The 1975, já disponível em todas plataformas digitais! hyperurl.co/NOACF