ANÁLISE: A Brief Inquiry Into Online Relationships

“Não há bandas grandes fazendo algo tão interessante quanto nós”, Matty Healy diz a Billboard no começo do ano. E ele provou estar certo meses depois, ao dar luz ao álbum mais intrigante e genial dos últimos tempos. ‘A Brief Inquiry Into Online Relationships’ nasce da junção de dois modelos científicos já atestados pela banda tempos antes: a experimentação e a observação; fazendo do quarteto, verdadeiros alquimistas musicais, capazes de não somente liderar o rock atual, mas manter, uma estética rica e inteligente.

Aliás, tentar encaixar The 1975 em um gênero musical, se demonstra cada vez dia mais impossível (e desnecessário). O novo disco atesta a sagacidade dos músicos de viajar por décadas e estilos completamente diferentes, seja com samples de Joy Division (‘Give Yourself a Try’) ou baladas de Neo-Jazz (‘Mine’), amarrando tudo em 58 minutos de reflexões e minimalismos.

Entregar um trabalho artístico que discuta problemas pessoais enquanto dialoga com a sociedade moderna, não é um trabalho fácil, mas nesse caso, soa tão natural que espanta, em sua genialidade e adequação. ‘A Brief…’ é um álbum que só faria sentido aqui e agora, e isso o tornará atemporal com o passar dos anos. Comparações com ‘OK Computer’ já foram feitas por basicamente qualquer crítico musical, e com razão. Radiohead e The 1975 souberam reunir pré-conceitos do público após dois álbuns de peso e retornar com um terceiro projeto visionário em suas próprias circunstâncias, em 1997 onde a internet era um luxo, e em 2018, onde o eu-lírico e o ouvinte são nativos digitais.

Matty, em seu primeiro álbum completamente sóbrio, transforma a psicodelia em honestidade, com letras sobre terapia, solidão e vício, e junto a George, Adam e Ross, cria um ambiente relaxante e preocupante, dissecando a humanidade e deixando o espectador tirar suas próprias conclusões, seja com gritos (‘Love It If We Made It´) ou quase-sussurros (‘Be My Mistake’).

O interlúdio (‘A Man Who Married a Robot / Love Theme’), usa Siri para contar uma história estilo ‘Her’ (2013), enquanto um instrumental melodioso toca ao fundo, tentando abraçar um tema pouco instigado por qualquer outro grande artista atual. ‘Inside Your Mind’ flerta com a guitarra do primeiro álbum e a melancolia grandiosa do segundo, como uma grande metalinguagem em um projeto já fortemente auto-reflexivo.

‘How To Draw / Petrichor’ é o auge da criatividade temática do quarteto, misturando falhas computadorizadas com dois atos harmonicamente interligados, criando um êxtase musical que só a The 1975, em todo o seu ego e inovação, poderia criar. ‘TOOTIME…’ é o momento mais pop de todo o álbum mas é essencial para a construção de um leque de traços musicais ainda mais diversificado e abrangente. E a jornada acaba com a épica ‘I Always Wanna Die (Sometimes)’, um encerramento digno da proposta inicial, uma experimentação moderna. E é isso que eles fazem, um movimento sobre a geração milenar e suas problemáticas, uma faixa emocionante e crua.

De qualquer forma, é um trabalho de importância contemporânea buscando ser histórico. Dá palco a temáticas sociais variadas e estuda o presente e suas formas. Ao final, julga muito, mas apresenta maturidade, legado e sabedoria, colocando a banda como um nome artístico de grande força, capaz de produzir conteúdo que requer uma análise para ser digerido, e isso é o suficiente para uma juventude cada vez mais crítica e intensa.

Por Luiz Henrique Otto

 

‘A Brief Inquiry Into Online Relationships’ já está disponível em todas as plataformas!

Ouça: smarturl.it/abiior






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