“Nós queremos um legado!”

“Faz quase um ano desde a minha última sessão fotográfica com o The 1975 para a Q Magazine, eles foram ótimos de fotografar e esse ano estavam ainda melhores. O show no Tufnell Park’s Dome foi íntimo e pessoal, comparado aos shows de sempre em arenas, seguido por um dia no estúdio. A banda estava muito relaxada, comprometidos uns aos outros e com a câmera. Cada um dos meninos tem um estilo único e que funciona muito bem como um grupo – eles são muito expressivos e visuais. Eles tem fortes ideias e usam quase todo o espaço no estúdio, que era uma antiga fábrica, perfeita para uma história em fotos. Durante os últimos 12 meses o The 1975 conseguiu número 1 nos dois lados do Atlântico e ganharam um BRIT Award por ‘Melhor Grupo Britânico’. Mas Matty diz que não é o suficiente. Isso é apenas o começo. Próximo, uma fase imperial.”
– Alex Lake, chefe de fotografia da Q Magazine.

No dia 22 de Fevereiro, a noite que o The 1975 ganhou seu prêmio no BRIT Awards por ‘Melhor Grupo Britânico’, o frontman Matty Healy recusou convites para after-parties elegantes e foi direto para sua casa alimentar seu cachorro. Ele deu a Allen Ginsberg, o cachorro, o jantar e depois seguiu para a casa do seu melhor amigo, e colega de banda, George Daniel. Os dois dividiram um baseado, escutaram um álbum ao vivo do James Brown, e depois Healy voltou à sua casa. Ele enrolou outro cigarro e assistiu um documentário sobre David Hockney. Foi, ele pensou consigo mesmo, uma noite perfeita. Enquanto estava sentado na sua sala de estar, começou a pensar na raridade que o The 1975 é, uma banda que ele formou quando tinha 13 anos de idade ganhando um prêmio por um álbum que eles mesmos fizeram e produziram 14 anos depois. Ele não se importava de perder as festas brilhantes, dizendo a si mesmo que havia tido noites grandes o suficiente durante o ano passado; 90 por cento de suas noites, ele ponderou, foram compartilhadas com milhares de pessoas. Além disso, ele queria acordar, na manhã após ter ganho o BRITs, sentindo-se com a mente limpa e inspirado. E não com uma grande ressaca e 40 mensagens de texto de pessoas que ele mal conhece. Matty já aceitou o fato que, de vez em quando, não tem problema ficar sozinho.

Uma semana depois, o manager do The 1975, Jamie Oborne, estava nos dando boas vindas na porta da frente da casa de quatro andares de Healy. Ele nos guia até a cozinha, onde o frontman aparece numa neblina de fumaça como uma comédia Cheech & Chong. Ele aponta para sua máquina de escrever vintage na janela. “Eu estou escrevendo uma nota para divulgar que seremos headliners no Latitude Festival” ele diz. Vai ser o último show da turnê para divulgar ILIWYS, o álbum que consagrou o The 1975 como um fenômeno do indie-pop moderno e fez de Healy, o vocalista pretensioso e carismático, uma estrela. O álbum lançado em Fevereiro de 2016 foi acompanhado por uma série de pronunciamentos grandiosos do cantor. Em uma entrevista, ele declarou que “o mundo precisa desse álbum”. O ILIWYS conseguiu #1 tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos e, desde então, a banda conseguiu ganhar um BRIT Award, Q Award, NME Award, conseguiu uma nomeação para o Mercury Prize e esgotou arenas desde Nova Iorque (onde eles se apresentarão no Madison Square Garden, em Julho) até Melbourne, Estocolmo e Seul. A verdade é que ele não estava errado.
Vestindo um moletom Bella Freud com ‘The Last Poets’ estampado na frente e um par de calças cor-de-creme, Healy anda pela sua cozinha como uma ilustração de Tim Burton que saiu da página. Ele abre a geladeira para pegar a água filtrada, revelando que, além de metade de uma alface, há mais temperos do que comida de verdade. O que você cozinha?, perguntamos. “Erm, eu tenho comido muita morcela recentemente!” ele declara.
Há um quadro negro na parede coberto de lembretes para resolver a conta de água, os impostos, as plantas, o leiteiro e alimentar o cachorro. A parte de impostos é repetida no topo em letras maiúsculas. Healy parece perturbado, “Nós nem temos um leiteiro” diz. No topo à direita fica a mensagem mais importante de todas: “QUINTA: LIXEIRAS”. “Esse é o nosso novo clube da noite,” brinca. Você coloca seu próprio lixo pra fora? “Sim! Mas não usando essas calças!”, diz, indo para a sala de estar. Que dia é dia de pôr o lixo para fora, então? “Erm, eu não lembro,” murmura. “Ei, olha isso!” ele aponta para seu sistema Hi-Fi retrô e aumenta o volume. “Tem 16 válvulas!”, grita. “Você não precisa de 16 válvulas, eu apenas gosto de ter 16 válvulas. Esse estéreo, todas essas válvulas e coisas, são bem desnecessárias. Eu só gosto dessas bugigangas.” Um jogo de rugby está passando na enorme televisão fixada em sua parede, apesar de ninguém estar prestando atenção.
Nós subimos até o quarto de Healy, onde um homem chamado Mark está mexendo no guarda-roupa do vocalista. “Ele vai tirar fotos das minhas roupas, então está separando em cores,” Matty diz. Na janela, há um piano Wurlitzer virado para a rua. Healy se senta, toca alguns acordes e depois vai até seu próximo objeto. “Esse é um pedal reverb Hammond de guitarra, mas é feito de outros órgãos. Outra coisa cerimonial geeky,” diz. Ele nos leva até o último andar, onde o banheiro foi pintado com o mesmo rosa do ILIWYS. Tem um kit de bateria completo montado ao lado do sanitário.
Healy volta e dá uma espiada no meio da escadaria, onde você pode ver tudo até o primeiro andar. “Se eu tivesse 16 anos, eu cuspiria daqui”, diz. Esse pedaço, no topo da casa onde o sol brilha através da claraboia, é o seu lugar favorito. É onde ele toma seu café e fuma seu cigarro pela manhã. O outro quarto no sótão é o estúdio caseiro recém-construído da banda. Há um quote do poeta americano Walt Whitman em uma parede, e uma ilustração feita pelo cantor e compositor Daniel Johnston em outra. Esse pequeno espaço é onde o The 1975 estará gravando a maior parte do terceiro álbum. Não será lançado até 2018, mas Matty já anunciou como será chamado, reciclando o título de um dos primeiros EPs ‘Music For Cars’, e ele está escrevendo no momento.

Os pais de Matty se mudaram bastante quando ele estava crescendo e, desde que ele era um adolescente, ele considera que sua casa é qualquer lugar onde o The 1975 esteja. Originalmente, isso era na garagem de seu pai. “Se eu estivesse lá, eu sabia que em algum momento do dia alguém apareceria”, diz. Mais recentemente, a banda – completada pelo baterista George Daniel, guitarrista Adam Hann e baixista Ross MacDonald – teve um estúdio montado na casa do George, mas agora mudaram para cá.
Membros da banda são bem-vindos para irem e virem como quiserem, sem agendamentos. “George tem uma chave, Hann tem uma chave, tornou-se um pólo, é a torre do The 1975” Matty declara. “Isso é o significado de casa para mim”.
Ele senta numa almofada no chão na sala de estar e reacende seu cigarro. Healy gosta de morar no lado leste de Londres. Ele não ganha nenhuma atenção indesejada aqui, ao contrário de suas aventuras no centro de Londres, embora desde quando o BRITs passou na TV, houve um aumento de homens em furgões parando para dizer que o reconhecem. “Pessoas, que não me conheciam antes, tem me dado thumbs-up. É meio estranho, porque eu nunca fui amplamente famoso – ou você é um fã de música e me conhece ou você nem sequer ouviu falar no meu nome. Mas desde o BRITs, por ser o canal ITV, você se torna parte da consciência pública. É uma grande coisa”.

Apesar dessa elevação no interesse público, ou talvez por causa disso, Healy tem lutado contra sua solidão. Pode parecer surpresa, sabendo que ele apareceu no BRITs como se tivesse saído direto do set de Drácula de Bram Stoker: New Romantic Edition, cada centímetro do cantor brilhando nos holofotes. Mas Matty diz que, embora ele seja extrovertido no palco, ele é “genuinamente uma pessoa muito introvertida. Estou genuinamente me tornando um ermitão”. Parte dele se pergunta se ele não deveria ser assim e se, tendo 27 anos, ele deveria estar por aí com outras estrelas do rock sendo fotografado por paparazzi, tropeçando para fora de um bar exclusivo e depois entrando em outro. “Sinto que talvez eu tenha um dever cultural de fazer isso, mas eu não quero”.
Ele é uma pessoa de extremos. Ele é um ‘tudo dentro ou tudo fora’ quando bebe. Ele não bebe em casa, mesmo que esteja trabalhando. Se ele decide ficar, então, é um desligamento total. Quando ele saiu de férias da turnê, pensou que precisava ficar apenas algumas noites em casa. Mas então, isso se tornou em algo como “não quero sair, não quero socializar, não quero ir lá para fora.” Ele acostumou a ter “todas essas paredes ao meu redor”, ele diz gesticulando para a sala, “essas barreiras, literalmente, impedindo que as pessoas cheguem até mim”. E sobre achar um meio-termo? “Isso é o que eu estou procurando, cara!” exclama. “E estou ficando melhor nisso. É que, eu vim de ficar chapado no meu quarto e escrever músicas e isso é o que eu realmente gosto de fazer”. Na deixa, ele dá um grande trago no baseado.
Do mesmo jeito que a música do The 1975 é uma brilhante fusão do rock dos anos 80 para R&B até eletrônica ambiente, a personalidade de Healy é um híbrido de diferentes eixos. Em um momento ele é um frontman corajoso e, no outro, emocionalmente sincero, um dínamo criativo que às vezes soa como um personagem da série ‘The Inbetweeners’. Ele é acolhedor, uma companhia cativante. Às vezes parece o personagem de Matt Smith em ‘Doctor Who’, todo inquisitivo. Como quando ele olha para sua caneca e se pergunta o motivo de todos elas, em sua casa, estarem faltando a alça. “Eu acho que deve ser a forma como lavamos”, decide. Healy é uma dose de ridículo em um momento onde as estrelas do pop estão o.k. em serem sem graça. Ele varia entre discursos incessantes até frases que se perdem na metade. Ele constantemente conta as expressões de pretensão ao dizer que sabe que está sendo pretensioso.
Durante a performance no BRITs, apareceram frases que criticavam a música da banda e a aparência, incitando espectadores curiosos a se perguntarem se a transmissão havia sido hackeada. Foi uma coisa clássica do Matty, ‘eu sei o que vocês estão pensando, então, direi por vocês’.

Como muitos heróis da geração Snapchat, ele tem muitos seguidores nas redes socais. Ele tem quase 800.000 seguidores no Twitter e quase 1 milhão no Instagram. Mas ele diz que “quanto mais a internet falha, menos as pessoas levam o conteúdo a sério.” Ele gostaria de sair das redes sociais, mas não pode pois “como uma pessoa que muitos jovens gostam, eu me sinto no dever de falar sobre coisas importantes e uma grande plataforma para isso é o Twitter”.
Ele quer falar sobre o mundo através da arte (“sem parecer muito pretensioso”), mas às vezes “quando há assuntos como o ban Muçulmano acontecendo, tem pessoas que te admiram e pensam que você tem o dever de falar sobre.” Healy diz que a abordagem do The 1975 é: “música pop socialmente informada e meio que politicamente motivada”.
A palavra que ele usa com mais frequência é ‘genuinamente’. Está em suas frases como se ele fosse entrar em combustão caso não a usasse a cada 30 segundos. Genuinamente. Coisas com significados e substâncias são importantes para Matty. Ele ficou entediado no BRITs porque ninguém disse algo interessante. Houveram tributos para George Michael, Prince e David Bowie, artistas que serviram de modelo, segundo ele, para que as pessoas pensassem mais na música pop. “Depois as pessoas ficaram tipo ‘Eu não sei o que falar’. Parece que existe esse sentimento de que você precisa ser Rage Against The Machine para dizer algo de valor. Você não precisar ser o Sleaford Mods. Nós obviamente não queremos Zayn Malik fazendo um álbum sobre o subsídio das indústrias no nordeste da Inglaterra. Mas há um meio-termo onde as pessoas deveriam se encontrar”.

Ele resume seu manifesto por música pop. “Nós estamos em uma fase muito importante e a música pop pode ser didática, estou usando uma palavra meio idiota. A música precisa ter significado. E não coisas que só rimam com ‘HEY OH HEY OH WAY OH, fucking DAY OH’!”, canta. Ele diz que artistas e bandas que põem uma bateria extra na frente do palco fazem isso para encobrir a letra ruim. Ele está os exilando também. “Caso não haja bateria suficiente, apenas dê outra ao baterista! Você não precisa colocar mais uma na frente! A música ‘Radioactive’ do Imagine Dragons pode facilmente ser chamada de ‘Pikachu Banana’. Aquilo é nada. Não tem mais espaço para o nada e a música pop tem espaço para isso. Não estou dizendo que sou o John Lennon ou Jarvis Cocker, mas irei dizer que existem partes do nosso álbum, que tem sindo muito mainstream, que significaram algo para as pessoas pelas razões certas. E isso não será tirado de mim”.
Ele se vê como algo a mais do que apenas o cantor do The 1975. Ele é “um menino criativo que também é o chefe de uma grande empresa.” Healy diz que ele e Jamie estão completamente no controle de tudo. “Tenho certeza de que me sinto com mais responsabilidade do que os outros artistas porque estou controlando minha própria visão, então é algo que não posso dar à um comitê,” ele fala.
Por trás da conversa de empresário, Matty Healy é um homem emocional. Ele chorou quando assistiu ‘Moonlight’ uns dias atrás, e chorou quando resolvia problemas de relacionamento com a namorada essa semana. “Eu choro muito, mas não de um jeito tolerante. Tem sido uma semana pesada. Ai, meu Deus, não consigo falar isso sem parecer meio pateta, e eu sou do norte. Chorar é um jeito de validar como eu me sinto sobre certas coisas.” Ele diz imitando uma voz emo, “Porque eu tenho uma alma muito sensível. Mas genuinamente é isso!” Ele está namorando por um ano e meio. Ele gosta de pensar que um dia vai aquietar-se, mas não tem ideia de como isso poderia acontecer. “É difícil por causa das turnês, mas o amor que eu sinto pela garota que eu estou agora tem, definitivamente, influenciado muitas coisas no próximo álbum”.
De repente, a faísca nele se apaga e ele parece um pouco frágil, “Não tenho estado muito bem recentemente. Me sinto um pouco indisposto. É porque eu não tenho comido muito bem. Vamos lá, Freudian,” ele diz e caminha para o sofá em sua sala de estar. A manga de sua blusa cai e acaba revelando uma tatuagem em seu pulso que diz ‘DAD’. Ele fez 6 meses atrás depois de seu pai ter se recuperado de uma doença. “Isso foi muito estranho,” diz quase que para si mesmo. “Ele está bem agora. Ele não iria ficar confortável de eu ficar falando sobre isso.” No seu outro pulso ele tem o número de seu passaporte pois está cansado de ter que sempre buscar com o manager da turnê para preencher formulários de imigração. Quando o passaporte expirar, ele vai apagar aquela e fazer outra.

Ele mastiga uma banana devagar, “É parcialmente toda essa coisa sobre namorada,” diz. Matty está esticado no sofá, quase demonstrando um lado negativo: estrela de rock, apenas um cara magro nos seus 20-e-poucos anos que precisa de um abraço. Ele se anima ao falar sobre o que está vindo em breve. “Se você olhar os terceiros álbuns, OK Computer ou The Queen Is Dead, isso é o que precisamos fazer”. Ele escreveu duas músicas para o próximo álbum que são tão boas quanto as outras no anterior, ele supõe, e também muitas faixas ambiente e clássicas. Ele consegue se imaginar lançando sua própria linha fashion no futuro, mas quer ser predominantemente conhecido por fazer bons discos. “Eu quero um legado. Quero que as pessoas olhem para trás e pensem que nossos álbuns foram os melhores que uma banda pop poderia lançar nessa década.” Ele se preocupa em mostrar a sua versão mais pura e verdadeira, e ao mesmo tempo quer manter um pouco para si mesmo. “Não posso mudar quem eu sou e grande parte do The 1975 sou eu discutindo sobre quem eu sou, discutindo sobre o mundo”, diz. “Eu estou bem, estou alegre, mas…” ele se perde. Tem sido uma grande semana, num grande ano, e talvez tudo esteja o alcançando nesse momento.
Nós damos a ele o abraço de que precisa, e ele retribui com um beijo na bochecha e vai embora. Dez minutos depois, meu celular ilumina com uma mensagem de Healy: “Desculpe, não se preocupe comigo! Estamos bem!”. De volta ao seu espaço seguro, com todas as paredes em sua volta, as barreiras levantadas. Matty Healy senta em seu piano Wurlitzer, olhando uma rua movimentada de Londres, tentando entender como ele poderia parar de oscilar do extremo ao extremo, procurando por um meio-termo em toda a loucura. Ele está bem. Está alegre, mas…

Fonte: Q Magazine
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