MATTY HEALY: “Meu maior medo é me tornar o Sting.”

Na casa de Matty Healy, no nordeste de Londres, há agitação e confusão nesta tarde. O cantor do The 1975 comprou essa casa de quatro andares, em uma esquina que fica cada vez mais cara em Hackney, com o lucro da estreia autointitulada da banda em 2013, que vendeu milhões e ficou em primeiro lugar. Há muito espaço para sessões de fotos (algo que o quarteto fez, para essa matéria) e para um estúdio.

“Foi um bom achado, eu só tive que fazer algumas mudanças estéticas, era um filósofo sueco que morava aqui,” começa Healy, de uma maneira empolgada, enquanto me faz chá e seus colegas de banda e empresário discutem a viagem de última hora para Nova Iorque, para participarem do Saturday Night Live. “É a única casa na rua que é isolada, então eu posso fazer bastante barulho, fazer discos aqui. Porque isso tem feito parte do nosso etos desde sempre — nós sempre fizemos discos onde moramos.”

Bem, eles fizeram e não fizeram. É verdade que a banda se formou em Wilmslow High School, no sul de Manchester, 14 anos atrás, e passaram a última década até o lançamento do primeiro álbum gravando e trabalhando sozinhos, eventualmente formando uma gravadora, Dirty Hit. Foi um etos DIY (faça você mesmo) nascido da crua necessidade — nenhuma gravadora consagrada estava interessada em assinar com uma banda tão impossível de ser categorizada como o The 1975.

Dirty Hit, agora, licencia a música do The 1975 por grandes gravadoras (Polydor, no Reino Unido e Interscope, nos Estados Unidos). Essas relações adicionando, mais importante, os fanáticos que seguem a banda e a escala das aspirações de Healy significam que fazer discos em casa não é mais viável. O novo álbum do The 1975 foi escrito e com demos feitas durante mais de dois anos em turnê, e gravado durante oito meses no oeste de Londres e Los Angeles. Apresenta 17 faixas e engloba soul americano, funk britânico, piano clássico, pop dos anos 80, gospel, shoegaze e até um pouco de indie rock.

E, caso a ambição não esteja aparente, possui um título de 16 palavras (e uma vírgula): I Like It When You Sleep, for You Are So Beautiful Yet So Unaware of It.

Pergunto à Healy para desfazer uma imaginação sônica que varia desde The Blue Nile até My Bloody Valentine e a resposta do cantor é tipicamente enfeitada, sincera e, francamente, apaixonada.

“Quando você é um cara branco com guitarra, as pessoas vão te associar com outros caras brancos com guitarras,” ele nota, desajeitado e inquieto numa poltrona na sua sala. “No nosso primeiro álbum nós fomos associados à bandas como Arctic Monkeys. Quero dizer, eu gosto deles,” ele diz não inteiramente convincente, “mas eu não consigo imaginar outra comparação menos desejável. Para mim é muito imprecisa. Nós sempre tivemos que lutar contra essa coisa indie…”

A cena indie, ele observa, “é muito controlada por grupos de amizade, é muito consciente, ninguém quer fazer alguma coisa que seja particularmente carreirista ou comercialmente pensada. E produz essa atitude de ‘nós não nos importamos’. Então eles não podem ser julgados caso sejam umas bostas. Bem, se você não se importa,” ele grita bondosamente, cigarro balançando no ar. “Faça outra coisa!”

Healy é uma companhia fantástica, uma mistura combustível de confiança, consciência dilacerada e entusiasmado pop sem vergonha. Uma pergunta banal sobre como levou 13 anos para que o The 1975 se tornasse uma sensação do dia para a noite, solicita essa resposta: “Eu sou uma pessoa bem solidária. E não sou, nem remotamente, um sociopata. Porém sou muito auto-obsessivo, como muitas pessoas que estão na minha posição também são…”

“Mas eu não posso me tornar o Sting, não posso me tornar o Thom Yorke, não posso me tornar chorão e babaca. — essa auto-consciência é algo de que tenho orgulho no meu trabalho. Se minha língua está em minha bochecha então, talvez, eu não irei cair nela. Não quero começar a dizer a todos como viverem suas vidas, só quero refletir sobre como eu vivo a minha. Porque esse é meu maior medo,“ ele sorri, “me tornar o Sting.”

Numa leitura casual, você pode pensar que Healy foi pré-preparado para seu close-up. Seus pais, Tim Healy e Denise Welch, são ambos atores. Performance, talvez, esteja em seu DNA. Hoje ele é todo sorrisos ao falar sobre o assunto que antes, admitido por ele mesmo, poderia deixá-lo furioso. É claro que ele ainda tem problemas com o que ele assume ser as suposições que as pessoas tem sobre o passado dele. Mas pelo menos agora ele pode associar sua posição com alguma alegria. A validação do sucesso do primeiro álbum — assim como a continuação ousada, com 17 faixas que desafiam gêneros — podem trazer serenidade.

“Fazendo parte de uma banda de rock’n’roll, aspirando por credibilidade e tendo pais que fazem parte do [mundo] ITV — é difícil ser legal e fazer o que faço,” ele encolhe os ombros. “Porque as pessoas apenas assumem nepotismo — ‘ele é filho de celebridade.’ Eu nunca, nunca utilizei —” Healy para. “Quero dizer, que conexões uma pessoa que está em Coronation Street e um cara que costumava estar em Auf Wiedersehen, Pet têm no mundo do rock’n’roll?“ ele ri. “As pessoas dizem, ‘Ah, ele conseguiu com facilidade…’ Eu consegui com dificuldade!”

Ainda assim, esse passado, e os esforços da banda para serem ouvidos, fizeram parte do processo de tornar Matty Healy mais forte. O novo título do álbum — tirado de uma letra, que foi tirado de algo “tão suave e emo” que ele disse à uma ex-namorada — é típico de sua determinação de ser ele mesmo, sua própria estrela do rock.

“Quando estávamos no processo pós-medo de fazer esse disco, eu estava tipo: ‘Certo, vou chamá-lo disso.’ Porque era corajoso. E nós precisávamos fazer um disco corajoso. Se nós pusermos a base agora e chamarmos o álbum assim, é basicamente a decisão para inspirar outras decisões.”

Mas diga que é demais para ouvintes casuais, ou até mesmos fãs — as músicas lançadas até agora (‘Love Me’, ‘UGH!’ e ‘The Sound’) são consideravelmente mais The Blow Monkeys do que Arctic Monkeys. Diga que 17 faixas, título de 16 palavras é demais para ouvintes do Spotify entenderem e toda essa coisa é um desastre?

“É, e é um completo fracasso?” Matty Healy responde ansiosamente. “Então eu tive meu momento de Pet Sounds.”

I Like It When You Sleep, for You Are So Beautiful Yet So Unaware of It’ será lançado em 26 de fevereiro.

Fonte: The Independent
Leia a entrevista em inglês, na íntegra, no site independent.co.uk.
(Fevereiro 2016)






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