Drogas, o novo álbum e ser humano

Três mil pessoas estão fazendo fila no Soho para visitar a galeria pop-up do The 1975 e perambular entre os pertences da banda — livros em plantas e suas propriedades psicodélicas, um pássaro (falso, talvez) empalhado, um telefone rosa — que inspiraram as músicas do novo álbum da banda I like it when you sleep, for you are so beautiful yet so unaware of it. Placas neon (feitas pelo artista Samuel Burgess-Johnson), com os títulos das faixas do álbum, estão penduradas na parede ou apoiadas no chão, próximas ou em baixo de fotos das mesmas placas em praias ou do lado de fora de apartamentos.

Os objetos são ambíguos e variados, como o CD. E a maioria deles pertencem ao vocalista do The 1975, Matty Healy, que está entusiasmado por fazer essa exibição — “Foi fácil fazer isso, o The 1975 é a minha vida” — e também ciente de que alguém pode roubar alguma de suas coisas.

I like it when you sleep… é uma jornada do puro pop-rock até synth-pop dos anos 80, onde Healy fala sobre sua falta de fé e sua relação com drogas, família, fama e mulheres. Enquanto os últimos toques da exibição da banda estavam sendo feitos, ele nos apresentou à um disco que é profundamente conectado com sua vida.

Nós estamos rodeados por títulos, letras e objetos que inspiraram o álbum. Que tipo de lugar você estava quando escreveu esse álbum?
Eu acho que é uma concepção errada você ter que estar em um certo lugar enquanto escreve uma música. O que eu realmente gosto nesse álbum é que levou tanto tempo para ser feito e aconteceu a tanto tempo, o processo de escrita evoluiu ao invés de ficar estagnado comigo enraizado em apenas um lugar. Acho que muitas das canções são sobre um assunto específico, mas desse assunto você tem um espectro de sentimentos — desde amor até medo e desespero — eu estava em vários lugares diferentes enquanto fazia esse álbum. Eu acho que articulei muitas coisas de que tenho medo nesse álbum.

Estamos em baixo de uma placa que diz “Love Me” (me ame) — um dos títulos de uma das faixas do álbum. Você se preocupa com a fama e a aprovação?
Acho que “Love Me” veio do entendimento de que estamos num momento de nossas carreiras em que nos tornaremos muito maiores. A música é sobre as ideias que vêm com isso — tornar-se um pouco mais famoso, ser uma estrela do rock, a aceitação da fama e as coisas que isso traz à você, todas essas questões estavam voando em volta. Temos músicas chamadas, tipo, “If I Believe You” que é sobre invejar os fiéis. Eu não tenho uma fé ou um passado religioso e acho que sinto inveja disso nas pessoas, pessoas que tem salvação e não precisam pensar muito sobre isso, pessoas que não estão procurando por respostas. Há muito subtexto no álbum.

Você escreveu, nesse álbum, sobre altos e baixos…
Acho que o que eu tento, e apoio, é apenas ser humano. Eu acho que, com os nosso álbuns, eu só quero falar sobre como é ser uma pessoa. Acho que não tem problema ser realmente dinâmico. A coisa que é mais surpreendente é que a música, em todos nossos CDs, é bem colorida, animada e a forma como isso funciona é similar às músicas pop animadas, mas é justaposto com a narrativa onde falo sobre coisas que me deixam e deixam outras pessoas desconfortáveis, há algo obscuro nas coisas que escrevo. As pessoas se atraem à isso. As pessoas gostam de terem permissão, ou contexto, para pensarem sobre essas coisas. Serem capazes de lidar com essas coisas num ambiente seguro, ao invés de apenas em suas cabeças.

Também há referências às drogas, ambas aqui e no álbum. Isso foi algo que te ajudou a encontrar inspiração?
As drogas foram um mecanismo para que eu discutisse várias coisas, eu nunca estou falando especificamente dessa droga ou daquela droga, é mais sobre vício e fragilidade e os danos subsequentes. Acho que, quando se trata de drogas, eu acredito que nossa base de fãs entende que eu não estou romantizando. Eu sempre falo com esse desprezo ao meu comportamento — quer seja porque eu sinta que preciso usar drogas para obter algo ou o fato de que eu não deveria ter usado em primeiro lugar.

Fonte: Hunger TV
Leia a entrevista em inglês, na íntegra, no site hungertv.com.
(Fevereiro 2016)






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