Billboard entrevista Matty Healy

Por um minuto no começo de 2015, pareceu que Matty Healy do The 1975 ia de artista em ascensão à assunto de tabloide antes mesmo que ele tivesse uma chance. Taylor Swift conferiu o show da banda em 2014, determinando meses de fofocas e especulações.

O interesse em Healy foi uma oportunidade que muitas bandas emergentes teriam tirado vantagem. Mas, diferente de muitos músicos do século XXI, Healy não está remotamente interessado em alterar sua vida para passar tempo com celebridades — pelo menos, não as de carne e osso. Ele incluiu, sim, figuras de papelão de famosos no vídeo de ‘Love Me’, seu jeito dissimulado de reconhecer amizades duvidosas de celebridades que fazem manchetes e preenchem as timelines das redes sociais.

“Eu senti que todos meus colegas eram amigos de todas as outras pessoas, mas eu não era amigo de ninguém,” Healy relembra o período após o álbum de estreia da banda do Reino Unido ser lançado. “Eu percebi que essa estranha hierarquia era construída baseado em quem você tinha fotos junto. Depois comecei a pensar, ‘Como todos vocês podem ser bons amigos? Como o Sam Smith é amigo de todo mundo?’”.

Ao invés de se preocupar com oportunidades no Instagram ou festas após shows, Healy se dedicou à algo que muitos artistas negligenciam depois do primeiro álbum: evolução. O próximo trabalho do The 1975, I Like It When You Sleep, For You Are So Beautiful Yet So Unaware Of It, é mais do que apenas um disco com um título difícil — é um salto gigante no processo criativo da banda, e o LP mais estilisticamente ambicioso do ano até agora (será lançado oficialmente em 26 de fev).

Antes da performance no episódio apresentado por Larry David no Saturday Night Live — algo que irá lançá-los em outro nível de fama, mesmo que Healy evite tocar para a imprensa com amizades de celebridades — Healy passou pelo escritório da Billboard em Nova Iorque. Durante uma discussão franca e pensativa, Healy falou sobre uma variedade de assuntos, desde seu projeto paralelo de “dance music obscura” até o porquê dele pensar que é uma desculpa “de merda” quando artistas não escrevem suas próprias músicas quando estão em turnê.

Fiquei surpreso em como esse novo álbum dá um enorme salto no processo criativo. Está em outro nível, comparado ao primeiro.

Não havia nenhuma regra para esse álbum, por isso que é algo tão longo e eclético. A única missão estabelecida era fazer questão de que fosse uma destilação de qualquer coisa que havíamos feito antes. Eu queria expandir o mundo do primeiro álbum.
É uma completa evolução e extensão, mas também faz referência ao primeiro e brinca sobre a ingenuidade comparada à resignação deste. Há tantos sub-textos e surpresas, referências musicais do primeiro álbum e narrativas líricas que finalizam canções anteriores.

Quando você diz “ingenuidade” do primeiro álbum, você quer dizer que olha para trás e se sente envergonhado em certos aspectos?

Não, é uma ingenuidade feliz de que tenho inveja agora. Da primeira vez você está fazendo um disco e é isso. Eu estava escrevendo sobre a minha vida. [No novo álbum], há essa resignação e sabedoria — não estou me chamando de sábio, mas eu sou sábio com minhas próprias experiências — e esse conhecimento substituiu a esperança do primeiro álbum. Isso é emo e depressivo para conversar. [risos] No primeiro álbum era eu olhando para minha vida e procurando maneiras de mudar quem eu era e ser mais feliz. Nesse álbum, é mais sobre sobre auto-aceitação e entender que você sempre estará procurando por essas coisas.

Esse é um disco maior do que o anterior. Você acha que alguns ouvintes irão selecionar o que querem ouvir do álbum?

Definitivamente. É bem intenso de se ouvir por completo, admito isso. Ninguém consome música de forma linear, então, por que criar música de forma linear? Eu queria que fosse tudo o que eu amo musicalmente, e eu amo muitas coisas.

Eu realmente gostei das músicas ambientes. Mesmo que algumas durem 6 minutos, você não nota — elas não são arrastadas.

É polido e está ali por um motivo. Quanto mais velhos ficamos, menos nós tocamos. Nós somos fãs de músicas estrangeiras e tentar fazer algo expansivo, coerente e difícil. Eu sinto que a intenção por trás de cada momento está certa. Não há nenhuma exibição e comodismo.

O single principal, ‘Love Me’, têm riffs de guitarras revigorantes e um ótimo throwback à vibe dos anos 80 que não está presente no resto do álbum. De onde isso surgiu?

Veio de curtição. Somos grandes fãs de Talking Heads, Scritti Politti e Japan. ‘Love Me’ é resultado de estar três anos em turnê e não querer fazer passagem de som da mesma música toda noite. O riff apenas aconteceu. ‘Love Me’ pareceu bombástico, ridículo e um pouco arrogante, eu estava tipo, “É assim que precisa ser. A estrela de rock comprando sua própria mitologia.” Nós nos encontramos, como uma banda, imersos num mundo que não nos sentíamos parte. Então é apenas… Me ame, se é isso o que você quer fazer.

Toda essa coisa de amigos famosos — seria esse um mundo que você se sente atraído?

Na verdade, não. Nós não éramos uma grande banda socialite. Agora que somos populares, não é como se nossos amigos fossem todos famosos. Mas eu senti que todos meus colegas eram amigos de todas as outras pessoas, mas eu não era amigo de ninguém. Eu percebi que essa estranha hierarquia era construída baseado em quem você tinha fotos junto. Depois comecei a pensar, “Como todos vocês podem ser bons amigos? Como o Sam Smith é amigo de todo mundo?”. Pensei, “Essa é a aspiração agora. As crianças querem estar nessas fotos.” Costumavam ser fotos do Bowie conversando com Paul Simon no Grammy — era para isso que estava reservado. É um declínio nos padrões do que esperamos culturalmente. Porque as pessoas que estão no alto escalão não estão lá pelas mesmas razões que costumava ser, pelo menos na maioria do tempo. Não todo o tempo. Agora você não pode ter uma experiência que não seja compartilhada. As pessoas capturam o agora para experienciar depois.

Isso te incomoda durante os shows?

Eu não me irrito porque eu entendo, mas eu tiro um momento para dizer “Vamos todos ter um tempo para não vivermos retrospectivamente.” Mas logo depois todos os celulares aparecem novamente. Tento não me aborrecer com coisas que não posso controlar. Mas eu gosto de lembrar às pessoas de que estamos todos lá e somos todos humanos.

Isso é justo. Você não pode lutar contra isso. Mesmo que eu tenha visto o Jack White tentar fazer isso em shows.

Não é os anos 60, cara. Não é, pessoas têm celulares, você está vivo agora e você tem que lidar com isso de certa maneira.

Na faixa ‘She’s American’ você tem uma frase sobre “consertar meus dentes”. Isso seria algo que você nota como uma grande diferença entre os Estados Unidos e Reino Unido?

Essa música é divertida. Não é algo sério, mas é sobre estar numa banda de rock inglesa e as nuances da procura entre garotas americanas e garotos ingleses. Dente é algo recorrente na América.

A faixa ‘If I Belive You’ me faz lembrar do Kanye. O hip-hop é o grande toque desse álbum?

Massivamente. Nós viemos de música negra. Foi nisso que eu cresci. Nós passamos um tempo em uma banda realmente emo no estilo Sunday Day Real Estate aos 15 anos de idade, porém canções baseadas em groove é o estilo do The 1975. Se você retirar ‘Sex’ de nosso arsenal, nós somos uma banda completamente diferente. ‘Sex’ nos definiu como indie, mas nossos discos são baseados em groove rock.

Tipo a versão rock do Prince.

Exatamente. Momentos desse álbum lembram Mazzy Star, My Bloody Valentine, Sigur Ros, mas nós somos produtores da mesma forma que valorizamos muito a produção. Nós olhamos Kanye ou Travis Scott, pessoas que sentimos que estão fazendo música pouco convencional e ainda sim comercialmente aceitável. Você só precisa olhar para Atlanta. Trap é o novo pop e punk ao mesmo tempo. Um movimento realmente alternativo, contracultural que também é o estilo da música pop. Fetty Wap, ele é a maior coisa no mundo. O que eu amo na cena trap é que vem de DIY (faça você mesmo). Há grandeza e dinheiro, justaposto com suas próprias batidas. Eu me identifico em ser ambicioso, numa escala pequena, usando o que você tem. O mundo do hip-hop é o mais influente para nós.

Como você compõe músicas?

Eu e George [Daniel] escrevemos as músicas. Começa com George fazendo um estilo sonoro que me inspira e, então, eu começo a escrever nisso ou vice-versa. Quando chega nas gravações, os meninos — que estão na banda desde sempre — fazem suas partes e suas identidades são expostas. Há colaborações nesse sentido, mas as músicas em si são escritas por mim e George.

Onde você escreveu as músicas desse álbum?

Ah, ônibus de turnê e backstage.

Isso não é difícil? Muitos artistas dizem que não conseguem escrever em turnê.

Essa é uma desculpa de merda, não é? Quando eu entendo, quando eu tenho aquele momento… Eu o coloco ao lado do desejo sexual. É como um desejo carnal para mim. Realmente me excita. A ideia de estar em uma banda, jaquetas de couro ou garotas, não passa pela minha cabeça quando estou escrevendo. Escrever música é catártico para nós. Eu amo fazer um show e depois ir embora, chegar no backstage e trabalhar em algo novo. É tudo o que faço, é a minha vida. Eu nem saio. Nós somos muito gratos sobre onde estamos, as oportunidades que temos e isso se manifesta no nosso desejo de continuar. George e eu estaremos fazendo muitas coisas após esse álbum. Nós sempre flertamos com dance music, obscura e não convencional, dance music para nós mesmos, mas nunca lançamos nada.

E vocês vão lançar?

Sim, acho que sim. Acho que vamos fazer remixes de algumas canções do álbum, e não deixar que ninguém faça — fazer em casa, talvez sob o nome do nosso projeto paralelo. Mas nós vamos ver.

Sua abordagem para escrever dance music é diferente?

Não, é estranho. Nós fizemos algumas vezes, escrevemos música para nosso projeto paralelo, mas o The 1975 começou a ficar tão eclético que acabamos colocando o trabalho lá. Agora parece que teremos que fazer algo tão, tão exótico para que não pareça uma faixa do The 1975.

Como o projeto se chama?

Tem um nome, mas não um que estarei divulgando ainda. Nós provavelmente faremos um grande caso sobre isso.

Que dance music você escuta?

DJ Tim Green é um dos meus produtores favoritos de todos os tempos… Mary Jane Coles… Eu cresci ouvindo à garage music. Sunship, Craig David e Artful Dodger. Nós amamos Gesaffelstein; nosso administrador de turnê é um artista chamado Sequel, que faz sons pesados de baixo, quase como a trilha sonora de Tron. Gostamos de deep house.

Seu álbum tem uma faixa chamada ‘Paris’ que foi escrita antes mesmo dos atentados. Mas no rescaldo dos ataques terroristas, você acha que irá mudar sua abordagem sobre ela? Como você irá introduzir nos shows?

Eu não sei… Quero dizer… Foda-se, é isso o que as pessoas querem. Se começarmos a ceder para as pessoas dessa forma, se tomarem nossa liberdade e independência, significa que iremos comprometer nossa arte porque estamos assustados… Eles querem destruir a coesão social para que as pessoas briguem. Eu não participarei disso. Não tive nada a ver com isso. Escrevi sobre uma cidade que amo, e é isso que estarei lembrando, não deixarei que Paris seja definida por isso. Desde que eu não esteja sendo insensível. Estou dizendo isso com vitríolo para você. Mas eu não pensei sobre isso o bastante. Pode ser diferente [tocar em Paris]. Eu não sou de lá, eu não estava lá. Parte de mim quer dizer “não, vai se fuder” — não para você, mas para eles — mas a outra parte diz que é algo tão controverso que preciso pensar mais. E eu vou pensar.

Para finalizar: por que o título do álbum é tão grande?

No momento que comecei a fazer esse disco, eu estava com medo de muitas coisas. E percebi que a única coisa que definiria esse álbum seria a convicção. O título foi algo que disse à uma namorada. Não dessa forma poética — não enquanto estava na cama dela, inclinado na janela com um cigarro — mas eu me lembrei e escrevi. E antes que eu fizesse o álbum, tomei a decisão de que esse seria o nome. Porque me faz sentir levemente desconfortável. Eu acredito nisso e parece certo. Se eu tomasse essa decisão agora e a apoiasse, então, tornaria-se o etos do álbum.

A gravadora não reagiu?

Nós somos assinados com a Interscope de certa forma. Mas estávamos assinados com nossa própria gravadora antes de nos tornarmos populares. Então, quando ‘Chocolate’ cresceu, as gravadoras voltaram atrás e conseguimos acordos de distribuição. Estou nessa posição maravilhosa onde posso utilizar gravadoras enormes sem ser comprometido criativamente. Entregamos o álbum finalizado, sem perguntas. É o que faz a arte, arte. Não há espaço para democracia na arte — Picasso disse isso. A visão de uma pessoa sempre será mais agradável e precisa. Isso, realmente, é… Bem, se chamar de artista me faz estremecer, mas essa é a minha arte.

Fonte: Billboard
Leia a entrevista em inglês, na íntegra, no site billboard.com.
(Janeiro 2016)






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